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Tudo começou num dia em que o meu pai, sentado na
sala, me contava a pequenina biografia ilustrada de
uma salesiana que faleceu apenas com 29 anos e cujo
processo de beatificação está em curso: a Ir. Teresa
Valse Pantellini.
De
uma forma muito resumida, tratava-se de uma jovem
italiana da aristocracia que, no dia da sua primeira
comunhão se tinha sentido chamada por Jesus para se
dedicar toda a Deus e, na sua juventude, decidiu
deixar a família e as riquezas para, como D. Bosco,
se dedicar às meninas mais pobres entrando por isso
no Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora.
A
vida desta jovem Irmã, impressionou-me de tal modo
que, à distância de quase meio século, recordo as
imagens e algumas das frases que as ilustravam,
assim como as palavras do meu pai quando lhe
perguntei: «Pai, porque é que esta menina tão rica
quis deixar o palácio onde vivia para ir cuidar das
meninas pobres e mal-educadas?». E depois deixar de
ser servida pelas criadas para fazer os «trabalhos
mais humildes»!...É que me meteu muita confusão tudo
aquilo!… O meu sonho de criança era todo ao
contrário: viver num palácio como as princesas e
rainhas das histórias que ouvia contar!
Mas o segredo da vida da Ir. Teresa estava na
resposta do meu pai que, sem adivinhar a repercussão
das suas palavras me respondeu: «Porque ela amava
muito Nosso Senhor». Percebi tudo! «Deus é tão
bom e tão grande que merece o maior sacrifício»,
pensei eu. Disse então: «Pai, quando for grande,
quero ser como ela».
Este facto na vida do meu pai passou despercebido
como tantos outros, constatei-o mais tarde quando
lho contei, mas ficou bem registado no meu coração.
Não mais me separei do livrinho e quando entrei na
escola, aos sete anos e aprendi a ler, levei-o para
mostrar às minhas amigas e perguntar-lhes se não
queriam ser também como a Ir. Teresa Valse
Pantellini. Ninguém quis alinhar, mas a pequena
biografia desapareceu nas suas mãos e só mais tarde
(já no Instituto) pude obter uma cópia em italiano
que guardo ciosamente.
O
facto marcou muito a minha vida e deu-lhe um
sentido. Tudo o que fazia, como estudar, aprender a
catequese era orientado por este ideal: ser toda de
Deus para cuidar das meninas.
Aos nove anos conheci as minhas tias quando foram
visitar a minha avó doente, e, pelo hábito, e
brincadeiras que faziam com os miúdos na rua, vi que
também elas eram Filhas de Maria Auxiliadora,
Salesianas de D. Bosco. Isto reforçou a minha
vocação. Entretanto fui lendo outros livros que elas
ofereceram ao meu pai (seu irmão) tais como D. Bosco,
Madre Mazzarello e Ir. Ângela Valese. Sentia-me
totalmente identificada com eles.
O
dia do meu Crisma, aos 14 anos, foi decisivo na
minha opção pela consagração e pela missão. As
palavras do canto: «O amor de Deus repousa em Mim, o
amor de Deus Me consagrou e enviou a anunciar a paz
e o bem», aplicadas a Jesus, calaram profundamente
no meu íntimo, como se a mim se aplicassem também.
Eu tinha a certeza que Deus me queria salesiana mas,
entretanto surgiu-me a dúvida se a minha vocação não
seria influência das minhas tias, a quem tinha,
entretanto, manifestado o meu desejo. Foi uma luta
terrível. Para ter a certeza de uma escolha livre,
teria entrado noutro Instituto, se não fosse a
oração a Maria Auxiliadora que uma delas me
recomendou quando foi à terra em Agosto. Rezei-a sem
fé, pensando que fosse uma maneira de me puxar, mas
a verdade é que, passados alguns meses, tive uma
grande luz e serenidade para voltar atrás, àquilo
que estava nas origens da minha vocação e no dia 25
de Março de 1974, decidi entrar no Instituto das
Filhas de Maria Auxiliadora que me acolheu no dia 30
de Agosto do mesmo ano. Tinha quase 17 anos. Depois
do tempo de formação, no dia 5 de Agosto de 1978
entreguei a minha vida a Deus como a Ir. Teresa
Valse Pantellini e tantas outras Filhas de Maria
Auxiliadora.
Procurando seguir as pegadas de D. Bosco e Santa Mª
Mazzarello, vou tentando concretizar o sonho da
minha infância, respondendo aos contínuos
chamamentos que Deus me vai fazendo em cada dia a
favor da juventude.
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