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Proposta:
-
Que
sejam os alunos a partilhar a sua reflexão sobre as
histórias e as situações que o professor apresenta.
-
Seria
bom que fosse um ou dois alunos a fazer uma oração
espontânea ou um canto em cada dia.
-
Que o
empenho para o dia seja verbalizado por eles. O caminho
faz-se caminhando…
1ª Semana do Advento – Maria guia-nos no
Encontro com Deus
Frase
da liturgia de Domingo: “Senhor,
vós saís ao encontro daquele que pratica o bem com alegria”
(Isaías 64, 5)
Em cada
encontro podemos sempre ser, através de nossa vida, uma
boa notícia: no acolhimento dos irmãos, na busca da
reconciliação, na valorização dos pequenos gestos, no
testemunho de confiança, na luta por mais vida, no
crescimento da fé. Uma parte da preparação desta caminhada é
feita através do encontro com Maria, a jovem de Nazaré.
Maria é, mais do que qualquer outra pessoa, alguém que nos
ensina a reconhecer os sinais de Deus, a tal ponto de
aceitar um grande convite: ser a mãe de Jesus.
Para quem
acompanhamos através da escola, a
Novena da Imaculada
este ano é mais breve por razões de calendário, pois começa
dia 29 (que é um sábado) e termina no dia 8 (que é dia
santo). O importante é colocarmo-nos na atitude de Maria:
escutar a Palavra de Deus, aceitar o convite que Ele nos faz
para acolher Jesus na nossa vida e, assim, dá-lo a conhecer
como Salvador.
1º dia da
Novena: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça
diante de Deus” (Lc 1, 30).
Todos nós
somos olhados por Deus Pai com ternura.
Maria
reconheceu esse amor de Deus
para com ela e para com o Povo que esperava a vinda do
Salvador. Ele continua a confiar em nós assim como confiou
em Maria. Caso contrário, para que é que Ele se arriscou a
tanto?
Conta-se que um dia os
olhos de todos na corte celestial estavam fixos em Deus Pai.
Fez-se um enorme silêncio de espanto. O anjo Gabriel, com o
susto, não conseguiu controlar um rápido movimento reflexo
da asa esquerda que, ao embater num jarro, fez derramar
leite por todo o chão.
-
Desculpa, Senhor - disse ele muito atrapalhado -, eu não
estava à espera de uma coisa assim. Disseste ir viver lá
para a Terra? É essa a Tua ideia?
- Sim –
respondeu Deus. Os homens foram crescendo e agora já estarão
preparados para esta lição de amor. Eu mesmo abrirei os seus
corações e entenderão o que é o amor. Aprenderão
pessoalmente a amar quando conhecerem o Mau Filho Jesus.
Aprende-se mais com os olhos do coração!
- Amar? -
Surpreendeu-se outro anjo - Eu pensei que a Tua missão era a
salvação, nunca pensei que fossem sentimentos!
- Tanto
tempo aqui e ainda não entendeste?! – Perguntou-lhe Deus -
Só o amor salva! Amar e salvar não são duas coisas
diferentes, mas uma só. A única lição que os homens precisam
de aprender é amar. Quando souberem amar estarão salvos! Aos
poucos vou ensinando cada homem a amar, falando a cada um no
seu coração e na sua consciência. Agora chegou o tempo de
eles viverem com o amor em pessoa. Porquê mais rodeios se o
Filho pode ir lá directamente? Pensa bem, quando eles virem
o amor em pessoa e o abraçarem estarão salvos! Quando eles
puderem conhecer o Filho, estar com Ele, ouvi-Lo falar,
vê-Lo amar, saberão amar e estarão salvos.
- Não
sabes em que Te vais meter, Senhor. Aquilo lá em baixo na
Terra é uma selva! A pessoa às vezes sofre mesmo. E não só o
frio e o calor mas também a incompreensão dos outros. E até
mesmo a solidão. Desculpa, mas não é ambiente para Ti.
O empenho de hoje é
meditar
ao longo do dia neste Deus que vem ao nosso
encontro. Ele é o Deus-connosco.
Será que me dou conta do quanto Deus me ama?
Será que já percebi que o amor autêntico é o maior tesouro
que temos? Hoje decido-me a demonstrá-lo a todos, mas
principalmente àqueles que no fundo mais me custa aceitar.
Só aí é que eu percebo que sem Deus não posso amar de
verdade.
2º dia da Novena: “Maria
disse ao Anjo Gabriel então: Eis a serva do Senhor, faça-se
em mim segundo a tua palavra.” (Lc 1, 38)
Estar
atentos à Palavra de Deus e fazer dela o GPS para a
nossa vida. Deus fala no mais profundo da nossa consciência
e do nosso coração. Teria sido fácil a Maria dizer a Deus
que aceitava ser a Mãe de Jesus, o Messias que o povo judeu
esperava?
A atitude
de Maria foi sempre de humildade. E é uma atitude que
não encaixa em quem vive de “aparências”. Para pessoas
assim, só o Orgulho ocupa espaço. A humildade não significa
sentir-se menos que os outros, mas perceber que cada pessoa
deve ser respeitada pelo que ela possui de mais belo.
A
humildade é um tesouro que nos salva em muitas situações:
-
Há que
ser humilde para reconhecer os erros que cometemos.
-
Há que
ser humilde para ajudar sem esperar nada em troca.
-
Há que
ser humilde para receber um elogio da parte de outros.
-
Há que
ser humilde para viver a amizade sem barreiras de
preconceitos.
-
Há que
ser humilde para escutar um conselho de alguém mais
crescido.
-
Há que
ser humilde para recomeçar o caminho e dar o melhor que
temos.
-
Há que
ser humilde para dar ou receber perdão.
-
Há que
ser humilde para viver a vida sem estar à espera que os
outros têm de nos dar tudo o que queremos e quando
queremos.
-
Há que
ser humilde para aceitar as situações boas e menos boas
pelas quais passa a nossa família.
-
Há que
ser verdadeiramente humilde para ser-Se Deus e arriscar
viver entre os homens.
3º dia da
Novena: “Maria partiu às pressas dirigindo-se a uma cidade
da Judeia, entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel” (Lc
1, 39-40).
Maria e
Isabel partilham os mesmos sonhos e a mesma missão. Como são
nossos encontros entre amigos, familiares? Eles criam um
relacionamento fraterno, de respeito, de igualdade, amizade,
ajuda, compreensão...? Como?
Maria tem
pressa, não para fazer compras de Natal, nem para arranjar
confusão com outras pessoas, mas para encontrar-se e
partilhar a sua experiência de ser mãe com outra mãe,
Isabel. Gasta tempo para ajudar uma mulher mais idosa que
corre sérios riscos de saúde na sua gravidez. A nossa pressa
é para praticar a solidariedade com a dor, as preocupações
de quem está à nossa volta ou fazemo-nos indiferentes?
Um empenho
para o dia de hoje: Partilhar com a turma ou com os
colegas:
E os
nossos sonhos, são “grandes” ou “muito pequeninos”? Que
importância tem para a nossa vida a capacidade de sonhar?
Sonhamos apenas com o que queremos ter, ou os nossos sonhos
incluem outras pessoas? A amizade que temos faz de nós
grupos fechados ou as nossas palavras, gestos ou,
simplesmente, a escuta e o interesse que demonstramos, são
uma ajuda valiosa?
4º dia da Novena: “Na mesma região
encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos,
guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do
Senhor apareceu-lhes e disse-lhes: «Não temais, pois
anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo:
Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o
Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um
menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.» (Lc
2,8-12)
Advento é
tempo de acolher a Deus e aos irmãos em nossa vida. Por
vezes percebemos que aquilo que Deus vai segredando ao nosso
coração é um grande desafio, que nos complica um pouco a
vida: fala-nos de amar os outros e tratá-los com respeito,
cumprir os nossos deveres, sermos construtores de paz e
harmonia na nossa família,... Para isso, é preciso
mantermo-nos atentos aos anúncios de salvação: não
sermos indiferentes aos pedidos de ajuda, empenharmo-nos em
defender atitudes que favorecem o crescimento da alegria, da
concórdia, da partilha, do perdão, e manter-se unido na
defesa de qualquer irmão ameaçado. Será que somos corajosos
a este nível?
ORAÇÃO
Senhor,
neste tempo de Advento, abre os nossos olhos
para que descubramos
tua presença e tua paz em lugares surpreendentes;
sim, mesmo num estábulo. Amém
2ª Semana do ADVENTO - Viver a solidariedade
Frase
da liturgia de Domingo: “Consolai, consolai o meu povo, é
o vosso Deus quem o diz” (Is. 40, 1)
10 de
Dezembro – Dia dos Direitos Humanos
Uma Esmola
(história verídica, comunicada por um missionário na América
Latina)
Martim e os seus amigos suavam imensamente e
não podia ser de outra forma. Tinham carregado sobre os seus
ombros aquele transformador durante umas duas horas,
montanha acima, até chegarem a casa. Martim tinha-me dito
umas noites antes em sua casa, sentado no chão, à luz de uma
vela: “Se Deus quiser, este Natal teremos luz eléctrica”.
Martim e os seus amigos são indígenas da
etnia maya-quiché e sua comunidade encontra-se no alto de
uma montanha onde o serviço de água potável é escasso e onde
os seus habitantes não têm acesso ao serviço de energia
eléctrica. O compromisso de Martim com o seu povo fê-lo
começar a visitar pessoas e enviar pedidos e promover a
organização da sua comunidade. Ele também é catequista e
encontra na sua fé a força para dar-se em favor da
felicidade do seu próprio povo. Nem as seis horas de caminho
que às vezes teve que percorrer cada dia para fazer gestões,
nem as muitas negativas que teve que enfrentar o fizeram
desistir. “Se Deus quiser”…
Muitas pessoas desanimam e desistem
facilmente ante as dificuldades. Deixam que o medo as
paralise. Quiçá nós mesmos vivamos esta experiência.
Contudo, o Senhor nos convida a viver da fé, a fé verdadeira
que nos move em direcção à solidariedade e ao compromisso
com quem nos rodeia, a fé que cura as nossas paralisias...
Na oração de hoje, em silêncio, apresentemos ao Senhor
pessoas e grupos concretos que conhecemos, que estão
comprometidos na transformação de nossa sociedade e que o
fazem movidos pela sua fé em Jesus. Pode ser que o façam
silenciosamente, como o Martim, longe das câmaras de
televisão ou dos títulos dos jornais, ou pode ser que sejam
muito conhecidos. É tempo também para dar graças ao Senhor
por estas pessoas e grupos e demos graças também pela forma
como a nossa própria comunidade está comprometida em favor
dos pobres e necessitados que vivem perto de nós.
Um de nós
Naquela noite, ele estava em casa sozinho...a
sua esposa e filhos tinham ido à oração pelas famílias na
paróquia e de seguida estariam a dar o lanche aos sem abrigo
daquela rua. Mesmo sendo convidado como todos os anos nesta
época, ele ficou em casa...
A certa altura da noite, aborrecido com os
programas de TV, levantou-se, olhou pela janela e viu a neve
a cair. Ficou a admirar a cena por alguns minutos até que
foi interrompido por um barulho. Uma pancada no vidro da
janela. Era uma pombinha que estava a fugir da neve! Logo em
seguida apareceram também outras, atraídas pela luz e todas
voavam em direcção à janela...
De repente ele teve uma ideia: "O celeiro! É
isso! vou atraí-las ao celeiro e, assim, podem passar a
noite em segurança e aquecidas!"
Rapidamente, saiu de casa e correu para o
celeiro, abriu as portas e fez de tudo para chamar a atenção
delas...por mais que se esforçasse, nada conseguiu, nem
sequer fazer com que elas parassem de bater contra a
janela...Com amargura, viu os pombos cair no chão, um a um.
Tristemente pensou: "Se eu lhes fizesse entender...se eu
pudesse tornar-me um deles talvez pudesse atraí-los à
segurança!"
Foi nesse momento que a frase "tornar-me um
deles" fez eco na mente...e quando ouviu os sinos, como que
soando " tornar-me um deles" " tornar-me um deles", caiu
sobre os seus joelhos e ali mesmo, enquanto a neve caía, ele
entendeu e aceitou Jesus como o seu Senhor e Redentor... Foi
isso que Jesus fez...Tornou-se um de nós, para nos atrair à
segurança, para nos salvar do frio, para iluminar os nossos
caminhos e trazer-nos a felicidade que só o Seu grande e
infinito Amor nos dá!
O Espírito do Natal
Estava o
Senhor Teotónio, que era rico, muito gordo e grande fumador
de charutos, a carregar o carro com os presentes que passara
a manhã a comprar para os filhos, para os sobrinhos e para
as muitas pessoas com quem fazia negócios, quando se
aproximou dele um homem pobre, idoso e magro, que
prontamente obteve dele esta resposta:
— Comigo
não perca tempo porque não tenho dinheiro trocado, nem
alimento falsos mendigos.
— Mas eu não lhe pedi nada — respondeu o homem idoso
serenamente, com um sorriso que desarmou o Senhor Teotónio e
a sua bazófia de novo-rico.
— Então se
não me quer pedir nada, por que motivo está tão perto de mim
enquanto eu carrego o meu carro? — perguntou o Senhor
Teotónio entre duas baforadas de charuto que fizeram o homem
idoso e magro tossir convulsivamente.
— Estou
aqui, meu caro senhor — respondeu ele, já refeito da tosse —
para tentar perceber o que as pessoas dão umas às outras no
Natal.
— Com que
então — concluiu ironicamente o Senhor Teotónio, grande
construtor civil com interesses de norte a sul do País —
temos aqui um observador! Deve ser, certamente, de uma
dessas organizações internacionais que nós pagamos com o
nosso dinheiro e que não sabemos bem para que servem.
— Está
muito enganado. Mas já agora responda à minha pergunta: o
que é que as pessoas dão umas às outras no Natal? — insistiu
o homem pobre, idoso e magro.
— Bem, se
quer mesmo saber, eu digo-lhe. Quem tem posses, como eu,
pode comprar uma loja inteira, deixando toda a gente feliz,
a começar nos comerciantes e a acabar nas pessoas que vão
receber os presentes. Quem é pobre como você fica a
assistir. Percebeu a diferença?
O homem
magro e idoso reflectiu uns instantes sobre a resposta seca
e sarcástica do Senhor Teotónio e depois respondeu-lhe com
uma nova pergunta:
— Então e
o espírito do Natal?
— O que
vem a ser isso do espírito do Natal? — quis saber, cheio de
curiosidade, o Senhor Teotónio.
— O
espírito do Natal — respondeu o homem idoso e magro — é
aquilo que nos vai na alma nesta altura do ano e que está
muito para além dos presentes que damos. Para muitas
pessoas, o melhor presente pode ser um telefonema, uma
carícia ou um telefonema quando se está só.
— Era só o
que me faltava agora — desabafou, enfastiado, o Senhor
Teotónio, enquanto arrumava os últimos presentes na mala do
automóvel — ter agora um filósofo, ainda por cima vagabundo,
para aqui a debitar sentenças.
O homem
magro e idoso afastou-se do carro, mostrando que não queria
esmolas nem qualquer outra coisa que lhe pudesse ser dada
pelo Senhor Teotónio, e encaminhou-se para um grupo de
crianças que o esperavam.
Quando o
Senhor Teotónio passou por eles no carro, ouviu uma voz de
criança a dizer:
— Vamos,
Espírito do Natal, porque hoje ainda temos muito que fazer.
Dizendo
isto, o grupo ergueu-se no ar a esvoaçar com destino
incerto, largando um pó luminoso enquanto ganhava altura no
céu cinzento de Dezembro.
José Jorge Letria,
A Árvore
das Histórias de Natal
Diagnóstico de Natal
-
Finalmente encontrei-a Dr.ª Ana!
- Desculpe
enfermeira Madalena, mas estava aqui a olhar pela janela, e
a ver quanto o mundo é bonito lá fora! Estes flocos brancos
a voarem sobre a natureza são realmente um espectáculo
maravilhoso!
- Oh! Eu
sei no que estava a pensar, mas aqui também existem pessoas
bonitas, e tem uma para salvar!
A
enfermeira Madalena acompanhou a Dr.ª Ana até ao bloco
operatório, enquanto lhe fazia o relatório da paciente.
Quando lá chegaram, já estava tudo pronto, apenas faltava
anestesiar a doente. Esta era uma criança pequena. Embora
estivesse com uma expressão assustada via-se no seu rosto
que era uma menina doce e meiga. Um pouco antes de ser
anestesiada, ela puxou a manga da bata da Dr.ª Ana e
segredou-lhe ao ouvido:
- Os meus
pais vão ficar sem mim?
- Porque
perguntas isso? – Questionou a enfermeira Madalena que
ouvira a pergunta.
- Porque
gosto muito deles, e não quero que eles fiquem tristes …
- Não te
preocupes, porque Deus e os anjos protegem-te, lembra-te que
é Natal! – Respondeu carinhosamente Ana.
- Quem a
vai proteger és tu! – Retorquiu a enfermeira.
A
enfermeira não acreditava neste tipo de coisa, como Deus e
anjos, apenas achava que existia uma identidade superior que
nos controlava, e que na maior parte das vezes nos tramava a
vida, pois as coisas boas que nos aconteciam eram porque nós
fazíamos com que acontecessem, esta era uma forma de se
desculpar dos erros que cometia perante os outros e si
mesma.
A menina
que estava a ser operada, chamava-se Teresa e tinha oito
anos. Ela estava em estado crítico, pois possuía uma doença
estranha, que ainda não se sabia ao certo as causas nem a
cura. Mas teve de ser operada pois começara a piorar. A
operação começou no fim da noite de 23 para 24 de Dezembro e
prolongou-se um pouco pela manhã. Teresa já só acordou no
quarto do hospital, e tão cansada estava que voltou a
adormecer. A Dr.ª Ana já estava a trabalhar há horas, e
mesmo assim ia continuar. Este era um dos poucos Natais que
passava longe da sua família e já começava a sentir
saudades. Mas o dia nasceu lindo e maravilhoso, os raios
solares penetravam por entre os ramos das frondosas árvores,
era o Sol de Inverno.
Mal
acordou, Teresa carregou logo no botão de chamar as
enfermeiras, pois como já estava estável apetecia-lhe
conversar com alguém. Quando a porta se abriu entrou a Dr.ª
Ana, e esta logo lhe perguntou como estava a sua doente
preferida. Teresa respondeu-lhe que se sentia melhor, mas
não totalmente. A médica ao estranhar a ausência dos pais
perguntou-lhe onde é que eles estavam, e a menina respondeu:
- Não sei,
acho que foram ter com os meus irmãos, foram festejar o
Natal …sem mim!
Ana ao
ouvir isto abraçou-a e disse-lhe:
- Não
estás sozinha, eu estou aqui contigo.
O dia
passou-se calmo e tranquilo. Teresa passava o tempo a olhar
para a porta a ver se alguém chegava e, de vez em quando,
olhava pela janela a admirar os pássaros e a pensar como
seria a sua vida se fosse um deles. Pelo contrário, a Dr.ª
Ana variava entre o bloco operatório, o consultório e a
máquina do café.
Ao fim do
dia Ana resolveu ir ao jardim buscar uma flor para Teresa.
Antes de entrar no quarto disse à enfermeira que se
precisassem de alguma coisa ela estava junto de Teresa, pois
ia passar o Natal com ela. Quando serviram o jantar, já o
Sol se tinha deitado e a Lua tinha acordado.
Teresa, ao
terminar a refeição, pediu à Dr.ª Ana se podia ali ficar, e
Ana respondeu que sim. E juntas, sem querer, adormeceram.
Mas passado um pouco, a Dr.ª Ana acordou e resolveu ir ver
se precisavam dela.
Então,
correu até junto dos seus colegas. A primeira que encontrou
foi a enfermeira Madalena. Ficou a saber que dois adultos e
um jovem de dezasseis anos estavam na enfermaria a recuperar
do choque de um acidente ocorrido no dia anterior e vinham
transferidos de um hospital a 80 quilómetros. Ana quis ver
de imediato a ficha de identificação desses doentes… Eram a
família da Teresa. Por isso não tinham conseguido aparecer.
Algumas
horas depois, quando Teresa acordou deparou-se com toda a
família à sua volta. A Dr.ª dirigiu-se discretamente ao pé
de Teresa e murmurou-lhe:
-Agora já
é Feliz Natal.
Ela
perguntou-lhe:
- Afinal
eles apareceram, mas como?
- Sabes?
Não deves questionar a magia do Natal!
Lea e a prenda do Menino Jesus
Lea já
está cansada de ser sempre a mais pequena. O seu irmão,
Pedro, que já é grande, esse tem direito a fazer muitas
coisas na hospedaria de Belém. Mas sempre que ela quer ser
útil, respondem-lhe:
— Deixa
lá, Lea, ainda és muito pequenina para fazeres isso!
Do alto
dos seus quatro anos, Lea observa os peregrinos. São muitos,
nestes últimos tempos, em Belém. O imperador decidiu mandar
recensear toda a população e as pessoas vêm inscrever-se em
longas listas. Na hospedaria, a mãe cozinha sem cessar
enquanto o pai serve os clientes. Todas as manhãs, Pedro vai
ao mercado comprar legumes, regatear e discutir os preços,
mas, como sempre, ninguém presta atenção a Lea, a mais
pequena.
Numa bela
manhã, Lea não aguenta mais. Pega na sua manta preferida, a
grande e vermelha, que a agasalha e a reconforta de tudo, e
vai procurar a mãe.
— Eu
também gostava de ajudar! O Pedro pode fazer tudo, mas eu…
eu não sirvo para nada! Dizem sempre que sou muito pequena!
— Ó minha
querida, tu és muito importante para todos nós! — diz a mãe
surpreendida, pegando nela ao colo. — O que é que faríamos
sem ti? Ainda és muito pequenina para cozinhar ou ir buscar
água, mas, se queres mesmo ajudar-nos, passo a chamar por ti
quando vir que podes fazer alguma coisa.
— Está
bem! — diz Lea, radiante. — Entretanto vou brincar.
Lá fora,
Lea brinca durante muito tempo com o cordeirinho e com a sua
boneca e depois vai brincar com o irmão. Até que chegou um
grupo de visitantes. Nessa altura, Pedro teve de ir para
casa ajudar os pais.
Nessa
noite, há muita gente na hospedaria. As pessoas entram e
saem sem parar, numa barulheira infernal. O ruído é tanto,
que Lea mal ouve a mãe chamá-la do fundo do pátio:
— Lea!
Lea! Podes vir ajudar-me, por favor?
A menina
atravessa a cozinha a correr e aparece de imediato à
entrada. Ali, junto da mãe, encontra um homem e uma senhora
ainda jovem, sentada em cima de um burro.
— O que
posso fazer? — pergunta Lea, esbaforida.
— Podes
acompanhar estes senhores ao estábulo? — pergunta-lhe a mãe.
— A hospedaria está cheia, não tenho nem mais uma cama livre
para esta noite! Mas toma cautela, para o burro não
escorregar nas pedras.
Lea desce
com cuidado a encosta. Feliz por ir à frente, guia-os
devagar, muito devagarinho, até ao fundo da vereda. Lea
nunca imaginou que o estábulo pudesse agradar à jovem
mulher! Sem se lamentar, esta jovem ajoelha-se e agradece a
Deus a calma e a palha fresquinha que ali acabam de
encontrar. Enternecida, Lea observa-a a acariciar por muito
tempo o seu cordeirinho.
De
repente, o irmão surge à porta
—
Despacha-te, Lea, são horas de ires dormir!
— Boa
noite… — murmura-lhe uma voz suave. Lea repara como a jovem
mulher parece cansada. Para ela, termina ali um longo dia.
De
regresso à hospedaria, Lea vai deitar-se. Aconchegada no
calor da cama, reza as suas orações embrulhada na manta. Os
pais vêem depois dar-lhe um beijo e, logo de seguida, Lea
voa para o país dos sonhos. Dormia profundamente quando, de
súbito… em plena noite, quando tudo está calmo e silencioso,
algo a faz despertar.
— É
estranho — diz Lea para consigo. — Há uma luz a brilhar no
estábulo. Porque será? Precisarão os peregrinos de alguma
coisa? Tenho de ir ver…
De
imediato, embrulha-se na manta ainda quente e desce a
vereda. Devagarinho, Lea abre a porta do estábulo, e nunca
há-de esquecer o que vê ali. Deitada na palha, a jovem
mulher tem nos braços um recém-nascido, e o seu rosto brilha
de alegria. Lea não hesita um segundo…Tira a manta das
costas, dobra-a com cuidado, uma vez, duas vezes, depois
pousa-a na manjedoura.
— Tome… é
para o bebé — diz ela.
A jovem
mãe vem deitar o seu menino em cima da linda manta vermelha.
O coração de Lea bate com força. Está tão feliz!
No limiar
da porta, os pastores esperam. Contam que lhes apareceram
anjos, a anunciar que um novo rei ia nascer aquela noite,
num estábulo. Uma estrela conduzira-os até ali. Lea escuta,
maravilhada. De repente, também os pais e o irmão se
aproximam. Quando a mãe vê a manta vermelha, aperta Lea
contra si. Sente grande orgulho da sua menina. E compreende
então que se pode fazer coisas verdadeiramente importantes,
mesmo aos quatro anos de idade.
Tina Jähnert; Alesssandra Roberti (il.)
3ª Semana do Advento – Um coração que irradia
a Paz e a justiça
Frase
da liturgia de Domingo:
“Como a terra faz nascer as plantas, e o jardim brotar as
sementes, assim o Senhor Deus faz germinar a justiça”
(Is 61, 11)
Uma ceia inesperada
Numa noite
gelada de Dezembro, dois pobres cães vadios procuravam
abrigo debaixo de uma grande árvore de Natal erguida no meio
de uma praça, com uma vistosa iluminação que podia ser
observada até do céu. Debaixo dos ramos da árvore e próximo
do calor das lâmpadas fortes, eles conseguiam ter algum
conforto, protegendo-se da chuva e do frio intenso.
Disse um
dos cães para o companheiro:
— Há
quanto tempo andas nesta vida?
— Desde o
Verão passado. Os meus donos foram de férias e, como acharam
que dava muito trabalho arranjar quem tomasse conta de mim,
abandonaram-me. Foi assim que me tornei vadio, embora seja
um cão de raça.
— Quer
então dizer que é o primeiro Natal que passas na rua?
— Sim, é o
primeiro. E tu?
— Para mim
já é o terceiro. Eu não sou um cão de raça, sou um rafeiro,
e tinha uma dona que gostava muito de mim. Eu era a sua
única companhia. Um dia ela adoeceu e acabou por morrer.
— E o que
foi que te aconteceu?
— Os
filhos da minha dona não quiseram ficar com este encargo e
puseram-me na rua. Já por cá ando há algum tempo, remexendo
nos contentores, bebendo água das poças e das sarjetas e
fugindo das camionetas da Câmara que trazem homens com redes
para nos apanharem.
— Pois
olha que eu ainda não me habituei a esta vida e nem sei se
alguma vez me habituarei. Ainda estou muito zangado com os
meus donos por me terem feito o que fizeram. Pareciam gostar
muito de mim, gabavam-se muito da minha beleza e da minha
raça, mas acabaram por me abandonar, dizendo aos filhos que
alguém me roubou quando eu passeava sem trela.
— Já ouvi
contar muitas histórias como a tua, e olha que cada vez há
mais. As pessoas são egoístas e quando nos põem em casa não
pensam nas responsabilidades que têm para connosco.
— Mas
parece que com os gatos isso não acontece, e repara que eu
não gosto nada de gatos.
— Estás
enganado. Também há muitos gatos abandonados e há alturas em
que nos podíamos entender, já que os nossos problemas são os
mesmos quando se trata de abandono.
— Então e
qual é o teu desejo para esta noite de Natal?
— Para
dizer a verdade, o que eu desejava é que estas lâmpadas se
transformassem em ossos saborosos e numa refeição quente. Se
isso acontecesse, eu até era capaz de acreditar que há um
céu para os cães.
Mal ele
acabou de pronunciar estas palavras, caíram sobre eles
vários ossos e duas latas de comida apetitosa. Ambos se
refastelaram com a abundância e com a qualidade da refeição
que iria marcar para sempre a memória que ambos guardariam
daquela noite de Natal.
Certamente
haverá quem diga que nunca as lâmpadas coloridas de uma
árvore de rua se poderiam transformar em comida para cães
abandonados. Mas também é verdade que os cães não costumam
falar, e os desta história, para que nos lembremos sempre da
solidão dos que são condenados a tornar-se vadios, falaram
durante um bom bocado. Vale esta história para que não
esqueçamos os que não têm tecto, neste ou nos próximos
Natais.
José Jorge
Letria
A
Árvore das Histórias de Natal
As janelas douradas
O menino trabalhava arduamente durante todo o
dia, no campo, no estábulo e no armazém, pois os pais eram
fazendeiros pobres e não podiam pagar a um ajudante. Mas,
quando o sol se punha, o pai deixava-lhe aquela hora só para
ele. O menino subia ao alto de um monte e ficava a olhar
para um outro monte, distante alguns quilómetros. Nesse
monte, via uma casa com janelas de ouro e de diamantes. As
janelas brilhavam e reluziam tanto que ele era obrigado a
piscar os olhos. Mas, pouco depois, ao que parecia, as
pessoas da casa fechavam as janelas por fora, e então a casa
ficava igual a qualquer outra casa. O menino achava que
faziam isso por ser hora de jantar. Então voltava para casa,
jantava e ia deitar-se. Um dia, o pai do menino chamou-o e
disse-lhe:
— Tens sido um bom menino e ganhaste um dia
livre. Tira esse dia para ti, mas lembra-te: tenta usá-lo
para aprenderes alguma coisa boa.
O menino agradeceu ao pai e beijou a mãe. Em
seguida partiu, tomando a direcção da casa das janelas
douradas. Foi uma caminhada agradável. Os pés descalços
deixavam marcas na poeira branca e, quando olhava para trás,
parecia que as pegadas o seguiam, fazendo-lhe companhia. A
sombra também caminhava ao seu lado, dançando e correndo,
tal como ele. Era muito divertido.
Passado um longo tempo, chegou ao monte verde
e alto. Quando subiu ao topo, lá estava a casa. Mas parecia
que tinham fechado as janelas, pois ele não viu nada de
dourado. Aproximou-se e sentiu vontade de chorar, porque as
janelas eram de vidro comum, iguais a qualquer outra, sem
nada que fizesse lembrar o ouro. Uma mulher abriu a porta e
olhou carinhosamente para o menino, perguntando-lhe o que
queria.
— Eu vi as janelas de ouro lá do nosso monte
— disse ele — e vim de propósito para as ver de perto, mas
elas são de vidro!
A mulher meneou a cabeça e riu-se.
— Nós somos fazendeiros pobres — disse — e
não poderíamos ter janelas de ouro. E o vidro é muito melhor
para se ver através dele!
Convidou o menino a sentar-se no largo degrau
de pedra e trouxe-lhe um copo de leite e uma fatia de bolo,
dizendo-lhe que descansasse. Chamou então a filha, que era
da idade do menino. Dirigiu aos dois um aceno afectuoso de
cabeça e voltou aos seus afazeres.
A menina estava descalça como ele e usava um
vestido de algodão castanho, mas os cabelos eram dourados
como as janelas que ele tinha visto e os olhos eram azuis
como o céu ao meio-dia. Depois de terem comido, e se terem
tornado amigos, ele fez-lhe perguntas sobre as janelas
douradas. A menina confirmou, dizendo que sabia tudo sobre
elas, mas que ele se tinha enganado na casa.
— Vieste numa direcção completamente errada!
— exclamou ela. — Vem comigo, vou-te mostrar a casa de
janelas douradas, para ficares a saber onde fica.
Foram para um outeiro que se erguia atrás da
casa, e, no caminho, a menina contou que as janelas de ouro
só podiam ser vistas a uma certa hora, perto do pôr-do-sol.
— Eu sei, é isso mesmo! — confirmou o menino.
No cimo do outeiro, a menina virou-se e
apontou: lá longe, num monte distante, há uma casa com
janelas de ouro e de diamantes, exactamente como ele tinha
visto. Quando olhou, o menino viu, espantado, que era a sua
própria casa!
Apressou-se então a dizer à menina que
precisava de se ir embora. Prometeu voltar, mas não contou o
que descobrira. Desceu o monte, enquanto a menina ficava a
vê-lo afastar-se, na luz do sol poente. O caminho de volta
era longo e já estava escuro quando chegou a casa dos pais.
Mas o lampião e a lareira luziam através das janelas,
tornando-as quase tão brilhantes como as vira do outeiro.
Quando abriu a porta, a mãe veio beijá-lo e a irmãzinha
correu a pendurar-se-lhe ao pescoço. Sentado perto da
lareira, o pai levantou os olhos e sorriu.
— Tiveste um bom dia? — perguntou a mãe.
— Sim! — o menino passara um dia óptimo.
— E aprendeste alguma coisa? — perguntou o
pai.
— Sim! — disse o menino. — Aprendi que a
nossa casa tem janelas de ouro e de diamantes.
William J. Bennett
O presente de Natal do Pequeno Anjo
Era uma
vez – segundo a contagem do tempo dos homens, há muitos,
muitos anos, segundo o calendário do céu, há apenas um dia –
um anjinho triste, conhecido em todo o reino celestial por
Pequeno Anjo.
O Pequeno
Anjo tinha exactamente dez anos, seis meses, cinco dias,
sete horas e vinte e dois minutos quando chegou junto do
venerável Guarda da Porta do Céu e pediu para entrar. Ali
estava ele, desafiador, as perninhas curtas teimosamente
abertas, a fazer de conta que não estava nada impressionado
com todo aquele brilho celestial.
A paz
celeste andava perturbada com o comportamento do Pequeno
Anjo. Nas aulas de canto do coro celestial, cantava tão alto
e tão desafinado, que as delicadas harmonias celestes eram
destruídas. Ainda por cima, por causa das suas perninhas
curtas, chegava sempre atrasado para a oração da noite, e
batia contra as asas dos outros anjos ao tentar passar por
entre as filas para se colocar no seu lugar.
Podia
ter-se desculpado este mau comportamento, mas o aspecto
exterior do Pequeno Anjo era totalmente imperdoável. A sua
auréola estava cheia de nódoas nos sítios onde ele a
segurava com os dedos sujos, quando corria. Mesmo quando
estava parado, a auréola estava sempre torta ou então caía
para o chão e rolava por uma das ruas de ouro, e o Pequeno
Anjo tinha de correr atrás dela.
Todos viam
que, mais cedo ou mais tarde, aquela situação havia de levar
a um castigo. E assim aconteceu. Num eterno dia, de um
eterno mês, de um eterno ano, ele foi chamado à presença do
Anjo da Paz. O Pequeno Anjo penteou-se com cuidado, escovou
as asas desgrenhadas e vestiu rapidamente um hábito quase
limpo, e pôs-se a caminho, apreensivo. Ao aproximar-se do
Palácio da Justiça Celeste, ouvia já ao longe soar um
cântico alegre. Voltou a polir rapidamente a auréola na
veste e entrou em bicos de pés.
O cantor,
que no céu é conhecido por Anjo da Compreensão, olhou para
baixo, na direcção do Pequeno Anjo, que fez imediatamente
uma tentativa frustrada para se tornar invisível, enfiando a
cabeça no colarinho da roupa, como uma tartaruga. À vista
disto, o Anjo da Compreensão não conseguiu manter-se sério.
Soltou um riso afável e quente, e disse:
— Então tu
é que és o delinquente que pôs o céu nesta agitação. Anda
cá, querubinzinho, e conta-me lá o que se passa!
O Pequeno
Anjo piscou primeiro um olho ao grande anjo, depois o outro…
e, de repente, sem ele próprio saber como, estava sentado no
colo a contar-lhe como era difícil para um rapazinho
transformar-se, de repente, num anjo. O Anjo da Compreensão
sorriu compreensivamente, e em seguida perguntou ao Pequeno
Anjo o que é que no Paraíso o faria mais feliz. Ele pensou e
depois segredou-lhe ao ouvido:
— Em casa,
debaixo da cama, está uma caixa. Se eu pudesse tê-la!
O Anjo da
Compreensão assentiu com a cabeça.
— Vais
tê-la — prometeu, e enviou de imediato um mensageiro do céu.
Nos dias
que se seguiram, todos estavam admirados com a notável
mudança que se tinha operado no Pequeno Anjo. Era o anjo
mais feliz de todos, e o seu comportamento e aspecto
exterior eram tão exemplares.
Certo dia,
chegou a notícia de que Jesus, o Filho de Deus, iria nascer
da Virgem Maria, em Belém. Um regozijo geral encheu os ares
e todos os anjos e arcanjos, as serafinas e os querubins, o
porteiro do céu e todos os demais habitantes do céu puseram
os seus trabalhos quotidianos de parte para prepararem
presentes para o Filho de Deus.
Todos
trabalhavam diligentemente, menos o Pequeno Anjo. Sentado no
alto da escada do céu, com a cabeça apoiada nas mãos,
esperava por uma boa ideia para uma prenda adequada. Mas,
por mais que pensasse, não se lembrava de nada que fosse
digno do Filho de Deus. Então, retirou do esconderijo, por
detrás de uma nuvem, a sua caixa, e pousou-a em frente do
trono de Deus. Era apenas uma pequena caixa, simples e já
gasta, mas continha todas aquelas coisas maravilhosas que
causariam prazer até ao Filho de Deus.
Lá estava
agora a pequena caixa, simples e já gasta, no meio dos
valiosos presentes dos anjos do Paraíso, presentes de tal
esplendor e beleza tão admirável, que o céu e o restante
universo estavam iluminados pelo seu simples reflexo.
Ao ver
este esplendor, o Pequeno Anjo sentiu um grande desânimo,
pois reconheceu que o seu presente não era digno. Gostaria
de o retirar, mas agora era tarde demais.
O Pequeno
Anjo tremia todo ao ver abrir a sua caixa. Diante dos olhos
de Deus e dos outros habitantes do céu encontrava-se agora
aquilo que ele tinha oferecido ao Filho de Deus: uma folha
vermelha que apanhara na floresta num dia de sol, um ovo de
passarinho da cor do céu, que tinha caído de uma oliveira,
dois seixos brancos, que ele encontrara na margem lodosa do
rio, e um pedaço de couro esfarrapado, que fora, noutros
tempos, a coleira do seu fiel companheiro de quatro patas…O
Pequeno Anjo chorava lágrimas quentes e amargas. Como pudera
alguma vez pensar que coisas tão inúteis iriam agradar ao
Filho de Deus?
Em pânico,
voltou-se para fugir e esconder-se. Mas, de repente,
tropeçou e caiu tão desajeitadamente sobre uma nuvem, que
foi a rolar até ao trono do Todo-Poderoso.
Reinava um
silêncio paralisante na cidade celeste, um silêncio onde só
se ouviam os soluços dolorosos do Pequeno Anjo. Mas, de
repente, elevou-se a voz de Deus, que disse:
— De todas
as oferendas, esta caixa é a que mais me agrada. Ela contém
coisas da terra e dos homens, e o Meu Filho nasceu para ser
o rei de ambos. Por isso, aceito esta oferenda em nome do
Menino Jesus, que hoje nasceu de Maria, em Belém.
Seguiu-se
um silêncio profundo e a caixa do Pequeno Anjo começou de
repente a resplandecer com uma luz sobrenatural. O brilho
tornou-se tão claro e radioso, que quase cegou os olhos de
todos os anjos. Aquele brilho tomou o um caminho pelo
firmamento e, como, transformado numa estrela
resplandecente, parou sobre um estábulo onde uma criança
tinha nascido.
Charles
Tazewell
O Quarto Rei
Deserto
adentro viajam os magos… montados nos seus camelos através
da escuridão da noite.
— Vejam,
estamos a ser guiados por aquela estrela! — exclamou o
primeiro.
— Guiados
ao encontro de um rei — concordou o segundo.
— O Rei do
Céu e da Terra — acrescentou o terceiro.
Havia um
outro homem que viajava com eles.
— Quem me
dera ser tão sábio como os meus companheiros — disse para si
próprio. — Ter-me-ia inteirado melhor sobre a razão da nossa
viagem antes de termos partido.
— A minha
prenda está escondida no alforge — murmurou o primeiro.
— A minha
vem atada ao cinto — respondeu o segundo.
— E eu
trago a minha cosida entre as pregas da túnica — acrescentou
o terceiro.
O quarto
homem olhou para eles com tristeza.
— Ainda
não encontrei uma prenda digna daquele rei — lamentou-se. —
Continuo à procura.
— A minha
prenda é ouro, porque o rei é poderoso — declarou o
primeiro.
— A minha
é incenso, porque as orações do rei chegarão a Deus que está
no Céu — anunciou o segundo.
— E a
minha é mirra, porque o rei será muito famoso em vida mas
sê-lo-á ainda mais após a morte — declarou o terceiro.
O quarto
homem baixou os olhos.
— Eu nem
sequer sei que prenda lhe hei-de dar — suspirou.
Os quatro
homens continuaram o caminho pela noite fora, prosseguindo
uma viagem que iria prolongar-se por muitos dias e muitas
noites.
Por fim, a
estrela que os conduzia ficou imóvel no céu nocturno,
pairando sobre uma humilde habitação.
— Que
lugar tão estranho para um rei — admirou-se o primeiro
homem.
— A
estrela mostra claramente que estamos no sítio certo —
respondeu o segundo.
— Vamos
então entrar e oferecer as nossas prendas — disse o
terceiro.
O quarto
homem ficou à espera do lado de fora.
— Posso ir
buscar água para os camelos — disse para si próprio — já que
não encontrei uma prenda digna do rei que está lá dentro.
Deslocou-se até ao poço e encheu um cântaro com água. Como
era muito pesado, pousou-o no chão por um instante. Foi
então que descobriu uma coisa maravilhosa, e inclinou-se
sobre o cântaro para a ver melhor.
— A
estrela — disse ele. — A estrela que está no céu, está
também no meu cântaro velho e gasto.
Ficou a
olhar para ela maravilhado, durante um momento, e a seguir
soltou uma sonora gargalhada.
— É isto
que vou levar ao rei — disse — a luz do Céu reflectida na
água do meu cântaro.
Milagrosamente, a estrela continuou a brilhar no cântaro,
fazendo sorrir o Rei-Menino.
Lois Rock (org.)
Contos e
Lendas da tradição cristã
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