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Nossa Senhora Auxiliadora

Bons Dias

[Arquivo]

 

Orientações gerais para os “Bons dias”

Dezembro 08 - Advento e Novena da Imaculada Conceição

 

“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”

 

Iniciamos a grande preparação para o Natal! Uma vez mais recordamos que Deus sempre surpreende aqueles que possuem um coração aberto à novidade desta grandiosa festa do nascimento do Deus Menino, o Emmanuel, Jesus Salvador.

 

O lema do conto de Saint Exupery, O Principezinho, “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos” vai ajudar-nos a ganhar consciência de que não podemos perder de vista o essencial.

Isto é válido para todos os momentos da nossa vida e também para esta época, tão repleta de luz, música, cor e prendas.

 

Nos Bons dias deste mês a nossa reflexão e oração vai ao encontro do essencial: Todos somos convidados a fazer Festa e a celebrar um grande mistério: Deus, que é infinitamente maior que tudo quanto podemos imaginar digna-se fazer-se Menino e a crescer entre os homens. Para que se deu a tanto trabalho?

 

Bons Dias Dezembro

Proposta:

  • Que sejam os alunos a partilhar a sua reflexão sobre as histórias e as situações que o professor apresenta.

  • Seria bom que fosse um ou dois alunos a fazer uma oração espontânea ou um canto em cada dia.

  • Que o empenho para o dia seja verbalizado por eles. O caminho faz-se caminhando…

1ª Semana do Advento – Maria guia-nos no Encontro com Deus

Frase da liturgia de Domingo: “Senhor, vós saís ao encontro daquele que pratica o bem com alegria”

(Isaías 64, 5)

 

Em cada encontro podemos sempre ser, através de nossa vida, uma boa notícia: no acolhimento dos irmãos, na busca da reconciliação, na valorização dos pequenos gestos, no testemunho de confiança, na luta por mais vida, no crescimento da fé. Uma parte da preparação desta caminhada é feita através do encontro com Maria, a jovem de Nazaré. Maria é, mais do que qualquer outra pessoa, alguém que nos ensina a reconhecer os sinais de Deus, a tal ponto de aceitar um grande convite: ser a mãe de Jesus.

 

Para quem acompanhamos através da escola, a Novena da Imaculada este ano é mais breve por razões de calendário, pois começa dia 29 (que é um sábado) e termina no dia 8 (que é dia santo). O importante é colocarmo-nos na atitude de Maria: escutar a Palavra de Deus, aceitar o convite que Ele nos faz para acolher Jesus na nossa vida e, assim, dá-lo a conhecer como Salvador.

 

1º dia da Novena: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus” (Lc 1, 30).

 

Todos nós somos olhados por Deus Pai com ternura. Maria reconheceu esse amor de Deus para com ela e para com o Povo que esperava a vinda do Salvador. Ele continua a confiar em nós assim como confiou em Maria. Caso contrário, para que é que Ele se arriscou a tanto?

 

Conta-se que um dia os olhos de todos na corte celestial estavam fixos em Deus Pai. Fez-se um enorme silêncio de espanto. O anjo Gabriel, com o susto, não conseguiu controlar um rápido movimento reflexo da asa esquerda que, ao embater num jarro, fez derramar leite por todo o chão.

- Desculpa, Senhor - disse ele muito atrapalhado -, eu não estava à espera de uma coisa assim. Disseste ir viver lá para a Terra? É essa a Tua ideia?

- Sim – respondeu Deus. Os homens foram crescendo e agora já estarão preparados para esta lição de amor. Eu mesmo abrirei os seus corações e entenderão o que é o amor. Aprenderão pessoalmente a amar quando conhecerem o Mau Filho Jesus. Aprende-se mais com os olhos do coração!

- Amar? - Surpreendeu-se outro anjo - Eu pensei que a Tua missão era a salvação, nunca pensei que fossem sentimentos!

- Tanto tempo aqui e ainda não entendeste?! – Perguntou-lhe Deus - Só o amor salva! Amar e salvar não são duas coisas diferentes, mas uma só. A única lição que os homens precisam de aprender é amar. Quando souberem amar estarão salvos! Aos poucos vou ensinando cada homem a amar, falando a cada um no seu coração e na sua consciência. Agora chegou o tempo de eles viverem com o amor em pessoa. Porquê mais rodeios se o Filho pode ir lá directamente? Pensa bem, quando eles virem o amor em pessoa e o abraçarem estarão salvos! Quando eles puderem conhecer o Filho, estar com Ele, ouvi-Lo falar, vê-Lo amar, saberão amar e estarão salvos.

- Não sabes em que Te vais meter, Senhor. Aquilo lá em baixo na Terra é uma selva! A pessoa às vezes sofre mesmo. E não só o frio e o calor mas também a incompreensão dos outros. E até mesmo a solidão. Desculpa, mas não é ambiente para Ti.

 

O empenho de hoje é meditar ao longo do dia neste Deus que vem ao nosso encontro. Ele é o Deus-connosco.

Será que me dou conta do quanto Deus me ama? Será que já percebi que o amor autêntico é o maior tesouro que temos? Hoje decido-me a demonstrá-lo a todos, mas principalmente àqueles que no fundo mais me custa aceitar. Só aí é que eu percebo que sem Deus não posso amar de verdade.

 

2º dia da Novena: “Maria disse ao Anjo Gabriel então: Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.” (Lc 1, 38)

 

Estar atentos à Palavra de Deus e fazer dela o GPS para a nossa vida. Deus fala no mais profundo da nossa consciência e do nosso coração. Teria sido fácil a Maria dizer a Deus que aceitava ser a Mãe de Jesus, o Messias que o povo judeu esperava?

A atitude de Maria foi sempre de humildade. E é uma atitude que não encaixa em quem vive de “aparências”. Para pessoas assim, só o Orgulho ocupa espaço. A humildade não significa sentir-se menos que os outros, mas perceber que cada pessoa deve ser respeitada pelo que ela possui de mais belo.

 

A humildade é um tesouro que nos salva em muitas situações:

  • Há que ser humilde para reconhecer os erros que cometemos.

  • Há que ser humilde para ajudar sem esperar nada em troca.

  • Há que ser humilde para receber um elogio da parte de outros.

  • Há que ser humilde para viver a amizade sem barreiras de preconceitos.

  • Há que ser humilde para escutar um conselho de alguém mais crescido.

  • Há que ser humilde para recomeçar o caminho e dar o melhor que temos.

  • Há que ser humilde para dar ou receber perdão.

  • Há que ser humilde para viver a vida sem estar à espera que os outros têm de nos dar tudo o que queremos e quando queremos.

  • Há que ser humilde para aceitar as situações boas e menos boas pelas quais passa a nossa família.

  • Há que ser verdadeiramente humilde para ser-Se Deus e arriscar viver entre os homens.

3º dia da Novena: “Maria partiu às pressas dirigindo-se a uma cidade da Judeia, entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel” (Lc 1, 39-40).

 

Maria e Isabel partilham os mesmos sonhos e a mesma missão. Como são nossos encontros entre amigos, familiares? Eles criam um relacionamento fraterno, de respeito, de igualdade, amizade, ajuda, compreensão...? Como?

 

Maria tem pressa, não para fazer compras de Natal, nem para arranjar confusão com outras pessoas, mas para encontrar-se e partilhar a sua experiência de ser mãe com outra mãe, Isabel. Gasta tempo para ajudar uma mulher mais idosa que corre sérios riscos de saúde na sua gravidez. A nossa pressa é para praticar a solidariedade com a dor, as preocupações de quem está à nossa volta ou fazemo-nos indiferentes?

 

Um empenho para o dia de hoje: Partilhar com a turma ou com os colegas:

E os nossos sonhos, são “grandes” ou “muito pequeninos”? Que importância tem para a nossa vida a capacidade de sonhar? Sonhamos apenas com o que queremos ter, ou os nossos sonhos incluem outras pessoas? A amizade que temos faz de nós grupos fechados ou as nossas palavras, gestos ou, simplesmente, a escuta e o interesse que demonstramos, são uma ajuda valiosa?

 

4º dia da Novena: “Na mesma região encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e disse-lhes: «Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.» (Lc 2,8-12)

 

Advento é tempo de acolher a Deus e aos irmãos em nossa vida. Por vezes percebemos que aquilo que Deus vai segredando ao nosso coração é um grande desafio, que nos complica um pouco a vida: fala-nos de amar os outros e tratá-los com respeito, cumprir os nossos deveres, sermos construtores de paz e harmonia na nossa família,... Para isso, é preciso mantermo-nos atentos aos anúncios de salvação: não sermos indiferentes aos pedidos de ajuda, empenharmo-nos em defender atitudes que favorecem o crescimento da alegria, da concórdia, da partilha, do perdão, e manter-se unido na defesa de qualquer irmão ameaçado. Será que somos corajosos a este nível?

 

ORAÇÃO

Senhor,
neste tempo de Advento, abre os nossos olhos
para que descubramos
tua presença e tua paz em lugares surpreendentes;
sim, mesmo num estábulo. Amém

 

 

2ª Semana do ADVENTO -  Viver a solidariedade

Frase da liturgia de Domingo: “Consolai, consolai o meu povo, é o vosso Deus quem o diz” (Is. 40, 1)

 

10 de Dezembro – Dia dos Direitos Humanos

Uma Esmola (história verídica, comunicada por um missionário na América Latina)

Martim e os seus amigos suavam imensamente e não podia ser de outra forma. Tinham carregado sobre os seus ombros aquele transformador durante umas duas horas, montanha acima, até chegarem a casa. Martim tinha-me dito umas noites antes em sua casa, sentado no chão, à luz de uma vela: “Se Deus quiser, este Natal teremos luz eléctrica”.

Martim e os seus amigos são indígenas da etnia maya-quiché e sua comunidade encontra-se no alto de uma montanha onde o serviço de água potável é escasso e onde os seus habitantes não têm acesso ao serviço de energia eléctrica. O compromisso de Martim com o seu povo fê-lo começar a visitar pessoas e enviar pedidos e promover a organização da sua comunidade. Ele também é catequista e encontra na sua fé a força para dar-se em favor da felicidade do seu próprio povo. Nem as seis horas de caminho que às vezes teve que percorrer cada dia para fazer gestões, nem as muitas negativas que teve que enfrentar o fizeram desistir. “Se Deus quiser”…

 

Muitas pessoas desanimam e desistem facilmente ante as dificuldades. Deixam que o medo as paralise. Quiçá nós mesmos vivamos esta experiência. Contudo, o Senhor nos convida a viver da fé, a fé verdadeira que nos move em direcção à solidariedade e ao compromisso com quem nos rodeia, a fé que cura as nossas paralisias... Na oração de hoje, em silêncio, apresentemos ao Senhor pessoas e grupos concretos que conhecemos, que estão comprometidos na transformação de nossa sociedade e que o fazem movidos pela sua fé em Jesus. Pode ser que o façam silenciosamente, como o Martim, longe das câmaras de televisão ou dos títulos dos jornais, ou pode ser que sejam muito conhecidos. É tempo também para dar graças ao Senhor por estas pessoas e grupos e demos graças também pela forma como a nossa própria comunidade está comprometida em favor dos pobres e necessitados que vivem perto de nós.

 

Um de nós

Naquela noite, ele estava em casa sozinho...a sua esposa e filhos tinham ido à oração pelas famílias na paróquia e de seguida estariam a dar o lanche aos sem abrigo daquela rua. Mesmo sendo convidado como todos os anos nesta época, ele ficou em casa...

A certa altura da noite, aborrecido com os programas de TV, levantou-se, olhou pela janela e viu a neve a cair. Ficou a admirar a cena por alguns minutos até que foi interrompido por um barulho. Uma pancada no vidro da janela. Era uma pombinha que estava a fugir da neve! Logo em seguida apareceram também outras, atraídas pela luz e todas voavam em direcção à janela...

De repente ele teve uma ideia: "O celeiro! É isso! vou atraí-las ao celeiro e, assim, podem passar a noite em segurança e aquecidas!"

Rapidamente, saiu de casa e correu para o celeiro, abriu as portas e fez de tudo para chamar a atenção delas...por mais que se esforçasse, nada conseguiu, nem sequer fazer com que elas parassem de bater contra a janela...Com amargura, viu os pombos cair no chão, um a um. Tristemente pensou: "Se eu lhes fizesse entender...se eu pudesse tornar-me um deles talvez pudesse atraí-los à segurança!"

Foi nesse momento que a frase "tornar-me um deles" fez eco na mente...e quando ouviu os sinos, como que soando " tornar-me um deles" " tornar-me um deles", caiu sobre os seus joelhos e ali mesmo, enquanto a neve caía, ele entendeu e aceitou Jesus como o seu Senhor e Redentor... Foi isso que Jesus fez...Tornou-se um de nós, para nos atrair à segurança, para nos salvar do frio, para iluminar os nossos caminhos e trazer-nos a felicidade que só o Seu grande e infinito Amor nos dá!

 

O Espírito do Natal

Estava o Senhor Teotónio, que era rico, muito gordo e grande fumador de charutos, a carregar o carro com os presentes que passara a manhã a comprar para os filhos, para os sobrinhos e para as muitas pessoas com quem fazia negócios, quando se aproximou dele um homem pobre, idoso e magro, que prontamente obteve dele esta resposta:

— Comigo não perca tempo porque não tenho dinheiro trocado, nem alimento falsos mendigos.
— Mas eu não lhe pedi nada — respondeu o homem idoso serenamente, com um sorriso que desarmou o Senhor Teotónio e a sua bazófia de novo-rico.

— Então se não me quer pedir nada, por que motivo está tão perto de mim enquanto eu carrego o meu carro? — perguntou o Senhor Teotónio entre duas baforadas de charuto que fizeram o homem idoso e magro tossir convulsivamente.

— Estou aqui, meu caro senhor — respondeu ele, já refeito da tosse — para tentar perceber o que as pessoas dão umas às outras no Natal.

— Com que então — concluiu ironicamente o Senhor Teotónio, grande construtor civil com interesses de norte a sul do País — temos aqui um observador! Deve ser, certamente, de uma dessas organizações internacionais que nós pagamos com o nosso dinheiro e que não sabemos bem para que servem.

— Está muito enganado. Mas já agora responda à minha pergunta: o que é que as pessoas dão umas às outras no Natal? — insistiu o homem pobre, idoso e magro.

— Bem, se quer mesmo saber, eu digo-lhe. Quem tem posses, como eu, pode comprar uma loja inteira, deixando toda a gente feliz, a começar nos comerciantes e a acabar nas pessoas que vão receber os presentes. Quem é pobre como você fica a assistir. Percebeu a diferença?

O homem magro e idoso reflectiu uns instantes sobre a resposta seca e sarcástica do Senhor Teotónio e depois respondeu-lhe com uma nova pergunta:

— Então e o espírito do Natal?

— O que vem a ser isso do espírito do Natal? — quis saber, cheio de curiosidade, o Senhor Teotónio.

— O espírito do Natal — respondeu o homem idoso e magro — é aquilo que nos vai na alma nesta altura do ano e que está muito para além dos presentes que damos. Para muitas pessoas, o melhor presente pode ser um telefonema, uma carícia ou um telefonema quando se está só.

— Era só o que me faltava agora — desabafou, enfastiado, o Senhor Teotónio, enquanto arrumava os últimos presentes na mala do automóvel — ter agora um filósofo, ainda por cima vagabundo, para aqui a debitar sentenças.

O homem magro e idoso afastou-se do carro, mostrando que não queria esmolas nem qualquer outra coisa que lhe pudesse ser dada pelo Senhor Teotónio, e encaminhou-se para um grupo de crianças que o esperavam.

Quando o Senhor Teotónio passou por eles no carro, ouviu uma voz de criança a dizer:

— Vamos, Espírito do Natal, porque hoje ainda temos muito que fazer.

Dizendo isto, o grupo ergueu-se no ar a esvoaçar com destino incerto, largando um pó luminoso enquanto ganhava altura no céu cinzento de Dezembro.

José Jorge Letria, A Árvore das Histórias de Natal

 

Diagnóstico de Natal

- Finalmente encontrei-a Dr.ª Ana!

- Desculpe enfermeira Madalena, mas estava aqui a olhar pela janela, e a ver quanto o mundo é bonito lá fora! Estes flocos brancos a voarem sobre a natureza são realmente um espectáculo maravilhoso!

- Oh! Eu sei no que estava a pensar, mas aqui também existem pessoas bonitas, e tem uma para salvar!

A enfermeira Madalena acompanhou a Dr.ª Ana até ao bloco operatório, enquanto lhe fazia o relatório da paciente. Quando lá chegaram, já estava tudo pronto, apenas faltava anestesiar a doente. Esta era uma criança pequena. Embora estivesse com uma expressão assustada via-se no seu rosto que era uma menina doce e meiga. Um pouco antes de ser anestesiada, ela puxou a manga da bata da Dr.ª Ana e segredou-lhe ao ouvido:

- Os meus pais vão ficar sem mim?

- Porque perguntas isso? – Questionou a enfermeira Madalena que ouvira a pergunta.

- Porque gosto muito deles, e não quero que eles fiquem tristes …

- Não te preocupes, porque Deus e os anjos protegem-te, lembra-te que é Natal! – Respondeu carinhosamente Ana.

- Quem a vai proteger és tu! – Retorquiu a enfermeira.

A enfermeira não acreditava neste tipo de coisa, como Deus e anjos, apenas achava que existia uma identidade superior que nos controlava, e que na maior parte das vezes nos tramava a vida, pois as coisas boas que nos aconteciam eram porque nós fazíamos com que acontecessem, esta era uma forma de se desculpar dos erros que cometia perante os outros e si mesma.

A menina que estava a ser operada, chamava-se Teresa e tinha oito anos. Ela estava em estado crítico, pois possuía uma doença estranha, que ainda não se sabia ao certo as causas nem a cura. Mas teve de ser operada pois começara a piorar. A operação começou no fim da noite de 23 para 24 de Dezembro e prolongou-se um pouco pela manhã. Teresa já só acordou no quarto do hospital, e tão cansada estava que voltou a adormecer. A Dr.ª Ana já estava a trabalhar há horas, e mesmo assim ia continuar. Este era um dos poucos Natais que passava longe da sua família e já começava a sentir saudades. Mas o dia nasceu lindo e maravilhoso, os raios solares penetravam por entre os ramos das frondosas árvores, era o Sol de Inverno.

Mal acordou, Teresa carregou logo no botão de chamar as enfermeiras, pois como já estava estável apetecia-lhe conversar com alguém. Quando a porta se abriu entrou a Dr.ª Ana, e esta logo lhe perguntou como estava a sua doente preferida. Teresa respondeu-lhe que se sentia melhor, mas não totalmente. A médica ao estranhar a ausência dos pais perguntou-lhe onde é que eles estavam, e a menina respondeu:

- Não sei, acho que foram ter com os meus irmãos, foram festejar o Natal …sem mim!

Ana ao ouvir isto abraçou-a e disse-lhe:

- Não estás sozinha, eu estou aqui contigo.

O dia passou-se calmo e tranquilo. Teresa passava o tempo a olhar para a porta a ver se alguém chegava e, de vez em quando, olhava pela janela a admirar os pássaros e a pensar como seria a sua vida se fosse um deles. Pelo contrário, a Dr.ª Ana variava entre o bloco operatório, o consultório e a máquina do café.

Ao fim do dia Ana resolveu ir ao jardim buscar uma flor para Teresa. Antes de entrar no quarto disse à enfermeira que se precisassem de alguma coisa ela estava junto de Teresa, pois ia passar o Natal com ela. Quando serviram o jantar, já o Sol se tinha deitado e a Lua tinha acordado.

Teresa, ao terminar a refeição, pediu à Dr.ª Ana se podia ali ficar, e Ana respondeu que sim. E juntas, sem querer, adormeceram. Mas passado um pouco, a Dr.ª Ana acordou e resolveu ir ver se precisavam dela.

Então, correu até junto dos seus colegas. A primeira que encontrou foi a enfermeira Madalena. Ficou a saber que dois adultos e um jovem de dezasseis anos estavam na enfermaria a recuperar do choque de um acidente ocorrido no dia anterior e vinham transferidos de um hospital a 80 quilómetros. Ana quis ver de imediato a ficha de identificação desses doentes… Eram a família da Teresa. Por isso não tinham conseguido aparecer.

Algumas horas depois, quando Teresa acordou deparou-se com toda a família à sua volta. A Dr.ª dirigiu-se discretamente ao pé de Teresa e murmurou-lhe:

-Agora já é Feliz Natal.

Ela perguntou-lhe:

- Afinal eles apareceram, mas como?

- Sabes? Não deves questionar a magia do Natal!

 

Lea e a prenda do Menino Jesus

Lea já está cansada de ser sempre a mais pequena. O seu irmão, Pedro, que já é grande, esse tem direito a fazer muitas coisas na hospedaria de Belém. Mas sempre que ela quer ser útil, respondem-lhe:

— Deixa lá, Lea, ainda és muito pequenina para fazeres isso!

Do alto dos seus quatro anos, Lea observa os peregrinos. São muitos, nestes últimos tempos, em Belém. O imperador decidiu mandar recensear toda a população e as pessoas vêm inscrever-se em longas listas. Na hospedaria, a mãe cozinha sem cessar enquanto o pai serve os clientes. Todas as manhãs, Pedro vai ao mercado comprar legumes, regatear e discutir os preços, mas, como sempre, ninguém presta atenção a Lea, a mais pequena.

Numa bela manhã, Lea não aguenta mais. Pega na sua manta preferida, a grande e vermelha, que a agasalha e a reconforta de tudo, e vai procurar a mãe.

— Eu também gostava de ajudar! O Pedro pode fazer tudo, mas eu… eu não sirvo para nada! Dizem sempre que sou muito pequena!

— Ó minha querida, tu és muito importante para todos nós! — diz a mãe surpreendida, pegando nela ao colo. — O que é que faríamos sem ti? Ainda és muito pequenina para cozinhar ou ir buscar água, mas, se queres mesmo ajudar-nos, passo a chamar por ti quando vir que podes fazer alguma coisa.

— Está bem! — diz Lea, radiante. — Entretanto vou brincar.

Lá fora, Lea brinca durante muito tempo com o cordeirinho e com a sua boneca e depois vai brincar com o irmão. Até que chegou um grupo de visitantes. Nessa altura, Pedro teve de ir para casa ajudar os pais.

Nessa noite, há muita gente na hospedaria. As pessoas entram e saem sem parar, numa barulheira infernal. O ruído é tanto, que Lea mal ouve a mãe chamá-la do fundo do pátio:

— Lea! Lea! Podes vir ajudar-me, por favor?

A menina atravessa a cozinha a correr e aparece de imediato à entrada. Ali, junto da mãe, encontra um homem e uma senhora ainda jovem, sentada em cima de um burro.

— O que posso fazer? — pergunta Lea, esbaforida.

— Podes acompanhar estes senhores ao estábulo? — pergunta-lhe a mãe. — A hospedaria está cheia, não tenho nem mais uma cama livre para esta noite! Mas toma cautela, para o burro não escorregar nas pedras.

Lea desce com cuidado a encosta. Feliz por ir à frente, guia-os devagar, muito devagarinho, até ao fundo da vereda. Lea nunca imaginou que o estábulo pudesse agradar à jovem mulher! Sem se lamentar, esta jovem ajoelha-se e agradece a Deus a calma e a palha fresquinha que ali acabam de encontrar. Enternecida, Lea observa-a a acariciar por muito tempo o seu cordeirinho.

De repente, o irmão surge à porta

— Despacha-te, Lea, são horas de ires dormir!

— Boa noite… — murmura-lhe uma voz suave. Lea repara como a jovem mulher parece cansada. Para ela, termina ali um longo dia.

De regresso à hospedaria, Lea vai deitar-se. Aconchegada no calor da cama, reza as suas orações embrulhada na manta. Os pais vêem depois dar-lhe um beijo e, logo de seguida, Lea voa para o país dos sonhos. Dormia profundamente quando, de súbito… em plena noite, quando tudo está calmo e silencioso, algo a faz despertar.

— É estranho — diz Lea para consigo. — Há uma luz a brilhar no estábulo. Porque será? Precisarão os peregrinos de alguma coisa? Tenho de ir ver…

De imediato, embrulha-se na manta ainda quente e desce a vereda. Devagarinho, Lea abre a porta do estábulo, e nunca há-de esquecer o que vê ali. Deitada na palha, a jovem mulher tem nos braços um recém-nascido, e o seu rosto brilha de alegria. Lea não hesita um segundo…Tira a manta das costas, dobra-a com cuidado, uma vez, duas vezes, depois pousa-a na manjedoura.

— Tome… é para o bebé — diz ela.

A jovem mãe vem deitar o seu menino em cima da linda manta vermelha. O coração de Lea bate com força. Está tão feliz!

No limiar da porta, os pastores esperam. Contam que lhes apareceram anjos, a anunciar que um novo rei ia nascer aquela noite, num estábulo. Uma estrela conduzira-os até ali. Lea escuta, maravilhada. De repente, também os pais e o irmão se aproximam. Quando a mãe vê a manta vermelha, aperta Lea contra si. Sente grande orgulho da sua menina. E compreende então que se pode fazer coisas verdadeiramente importantes, mesmo aos quatro anos de idade.

Tina Jähnert; Alesssandra Roberti (il.)
 

3ª Semana do Advento – Um coração que irradia a Paz e a justiça

Frase da liturgia de Domingo: “Como a terra faz nascer as plantas, e o jardim brotar as sementes, assim o Senhor Deus faz germinar a justiça” (Is 61, 11)

 

Uma ceia inesperada

Numa noite gelada de Dezembro, dois pobres cães vadios procuravam abrigo debaixo de uma grande árvore de Natal erguida no meio de uma praça, com uma vistosa iluminação que podia ser observada até do céu. Debaixo dos ramos da árvore e próximo do calor das lâmpadas fortes, eles conseguiam ter algum conforto, protegendo-se da chuva e do frio intenso.

Disse um dos cães para o companheiro:

— Há quanto tempo andas nesta vida?

— Desde o Verão passado. Os meus donos foram de férias e, como acharam que dava muito trabalho arranjar quem tomasse conta de mim, abandonaram-me. Foi assim que me tornei vadio, embora seja um cão de raça.

— Quer então dizer que é o primeiro Natal que passas na rua?

— Sim, é o primeiro. E tu?

— Para mim já é o terceiro. Eu não sou um cão de raça, sou um rafeiro, e tinha uma dona que gostava muito de mim. Eu era a sua única companhia. Um dia ela adoeceu e acabou por morrer.

— E o que foi que te aconteceu?

— Os filhos da minha dona não quiseram ficar com este encargo e puseram-me na rua. Já por cá ando há algum tempo, remexendo nos contentores, bebendo água das poças e das sarjetas e fugindo das camionetas da Câmara que trazem homens com redes para nos apanharem.

— Pois olha que eu ainda não me habituei a esta vida e nem sei se alguma vez me habituarei. Ainda estou muito zangado com os meus donos por me terem feito o que fizeram. Pareciam gostar muito de mim, gabavam-se muito da minha beleza e da minha raça, mas acabaram por me abandonar, dizendo aos filhos que alguém me roubou quando eu passeava sem trela.

— Já ouvi contar muitas histórias como a tua, e olha que cada vez há mais. As pessoas são egoístas e quando nos põem em casa não pensam nas responsabilidades que têm para connosco.

— Mas parece que com os gatos isso não acontece, e repara que eu não gosto nada de gatos.

— Estás enganado. Também há muitos gatos abandonados e há alturas em que nos podíamos entender, já que os nossos problemas são os mesmos quando se trata de abandono.

— Então e qual é o teu desejo para esta noite de Natal?

— Para dizer a verdade, o que eu desejava é que estas lâmpadas se transformassem em ossos saborosos e numa refeição quente. Se isso acontecesse, eu até era capaz de acreditar que há um céu para os cães.

Mal ele acabou de pronunciar estas palavras, caíram sobre eles vários ossos e duas latas de comida apetitosa. Ambos se refastelaram com a abundância e com a qualidade da refeição que iria marcar para sempre a memória que ambos guardariam daquela noite de Natal.

 

Certamente haverá quem diga que nunca as lâmpadas coloridas de uma árvore de rua se poderiam transformar em comida para cães abandonados. Mas também é verdade que os cães não costumam falar, e os desta história, para que nos lembremos sempre da solidão dos que são condenados a tornar-se vadios, falaram durante um bom bocado. Vale esta história para que não esqueçamos os que não têm tecto, neste ou nos próximos Natais.

José Jorge Letria

A Árvore das Histórias de Natal

 

As janelas douradas

O menino trabalhava arduamente durante todo o dia, no campo, no estábulo e no armazém, pois os pais eram fazendeiros pobres e não podiam pagar a um ajudante. Mas, quando o sol se punha, o pai deixava-lhe aquela hora só para ele. O menino subia ao alto de um monte e ficava a olhar para um outro monte, distante alguns quilómetros. Nesse monte, via uma casa com janelas de ouro e de diamantes. As janelas brilhavam e reluziam tanto que ele era obrigado a piscar os olhos. Mas, pouco depois, ao que parecia, as pessoas da casa fechavam as janelas por fora, e então a casa ficava igual a qualquer outra casa. O menino achava que faziam isso por ser hora de jantar. Então voltava para casa, jantava e ia deitar-se. Um dia, o pai do menino chamou-o e disse-lhe:

— Tens sido um bom menino e ganhaste um dia livre. Tira esse dia para ti, mas lembra-te: tenta usá-lo para aprenderes alguma coisa boa.

O menino agradeceu ao pai e beijou a mãe. Em seguida partiu, tomando a direcção da casa das janelas douradas. Foi uma caminhada agradável. Os pés descalços deixavam marcas na poeira branca e, quando olhava para trás, parecia que as pegadas o seguiam, fazendo-lhe companhia. A sombra também caminhava ao seu lado, dançando e correndo, tal como ele. Era muito divertido.

Passado um longo tempo, chegou ao monte verde e alto. Quando subiu ao topo, lá estava a casa. Mas parecia que tinham fechado as janelas, pois ele não viu nada de dourado. Aproximou-se e sentiu vontade de chorar, porque as janelas eram de vidro comum, iguais a qualquer outra, sem nada que fizesse lembrar o ouro. Uma mulher abriu a porta e olhou carinhosamente para o menino, perguntando-lhe o que queria.

— Eu vi as janelas de ouro lá do nosso monte — disse ele — e vim de propósito para as ver de perto, mas elas são de vidro!

A mulher meneou a cabeça e riu-se.

— Nós somos fazendeiros pobres — disse — e não poderíamos ter janelas de ouro. E o vidro é muito melhor para se ver através dele!

Convidou o menino a sentar-se no largo degrau de pedra e trouxe-lhe um copo de leite e uma fatia de bolo, dizendo-lhe que descansasse. Chamou então a filha, que era da idade do menino. Dirigiu aos dois um aceno afectuoso de cabeça e voltou aos seus afazeres.

A menina estava descalça como ele e usava um vestido de algodão castanho, mas os cabelos eram dourados como as janelas que ele tinha visto e os olhos eram azuis como o céu ao meio-dia. Depois de terem comido, e se terem tornado amigos, ele fez-lhe perguntas sobre as janelas douradas. A menina confirmou, dizendo que sabia tudo sobre elas, mas que ele se tinha enganado na casa.

— Vieste numa direcção completamente errada! — exclamou ela. — Vem comigo, vou-te mostrar a casa de janelas douradas, para ficares a saber onde fica.

Foram para um outeiro que se erguia atrás da casa, e, no caminho, a menina contou que as janelas de ouro só podiam ser vistas a uma certa hora, perto do pôr-do-sol.

— Eu sei, é isso mesmo! — confirmou o menino.

No cimo do outeiro, a menina virou-se e apontou: lá longe, num monte distante, há uma casa com janelas de ouro e de diamantes, exactamente como ele tinha visto. Quando olhou, o menino viu, espantado, que era a sua própria casa!

Apressou-se então a dizer à menina que precisava de se ir embora. Prometeu voltar, mas não contou o que descobrira. Desceu o monte, enquanto a menina ficava a vê-lo afastar-se, na luz do sol poente. O caminho de volta era longo e já estava escuro quando chegou a casa dos pais. Mas o lampião e a lareira luziam através das janelas, tornando-as quase tão brilhantes como as vira do outeiro. Quando abriu a porta, a mãe veio beijá-lo e a irmãzinha correu a pendurar-se-lhe ao pescoço. Sentado perto da lareira, o pai levantou os olhos e sorriu.

— Tiveste um bom dia? — perguntou a mãe.

— Sim! — o menino passara um dia óptimo.

— E aprendeste alguma coisa? — perguntou o pai.

— Sim! — disse o menino. — Aprendi que a nossa casa tem janelas de ouro e de diamantes.

William J. Bennett

 

 

O presente de Natal do Pequeno Anjo

Era uma vez – segundo a contagem do tempo dos homens, há muitos, muitos anos, segundo o calendário do céu, há apenas um dia – um anjinho triste, conhecido em todo o reino celestial por Pequeno Anjo.

O Pequeno Anjo tinha exactamente dez anos, seis meses, cinco dias, sete horas e vinte e dois minutos quando chegou junto do venerável Guarda da Porta do Céu e pediu para entrar. Ali estava ele, desafiador, as perninhas curtas teimosamente abertas, a fazer de conta que não estava nada impressionado com todo aquele brilho celestial.

A paz celeste andava perturbada com o comportamento do Pequeno Anjo. Nas aulas de canto do coro celestial, cantava tão alto e tão desafinado, que as delicadas harmonias celestes eram destruídas. Ainda por cima, por causa das suas perninhas curtas, chegava sempre atrasado para a oração da noite, e batia contra as asas dos outros anjos ao tentar passar por entre as filas para se colocar no seu lugar.

Podia ter-se desculpado este mau comportamento, mas o aspecto exterior do Pequeno Anjo era totalmente imperdoável. A sua auréola estava cheia de nódoas nos sítios onde ele a segurava com os dedos sujos, quando corria. Mesmo quando estava parado, a auréola estava sempre torta ou então caía para o chão e rolava por uma das ruas de ouro, e o Pequeno Anjo tinha de correr atrás dela.

Todos viam que, mais cedo ou mais tarde, aquela situação havia de levar a um castigo. E assim aconteceu. Num eterno dia, de um eterno mês, de um eterno ano, ele foi chamado à presença do Anjo da Paz. O Pequeno Anjo penteou-se com cuidado, escovou as asas desgrenhadas e vestiu rapidamente um hábito quase limpo, e pôs-se a caminho, apreensivo. Ao aproximar-se do Palácio da Justiça Celeste, ouvia já ao longe soar um cântico alegre. Voltou a polir rapidamente a auréola na veste e entrou em bicos de pés.

O cantor, que no céu é conhecido por Anjo da Compreensão, olhou para baixo, na direcção do Pequeno Anjo, que fez imediatamente uma tentativa frustrada para se tornar invisível, enfiando a cabeça no colarinho da roupa, como uma tartaruga. À vista disto, o Anjo da Compreensão não conseguiu manter-se sério. Soltou um riso afável e quente, e disse:

— Então tu é que és o delinquente que pôs o céu nesta agitação. Anda cá, querubinzinho, e conta-me lá o que se passa!

O Pequeno Anjo piscou primeiro um olho ao grande anjo, depois o outro… e, de repente, sem ele próprio saber como, estava sentado no colo a contar-lhe como era difícil para um rapazinho transformar-se, de repente, num anjo. O Anjo da Compreensão sorriu compreensivamente, e em seguida perguntou ao Pequeno Anjo o que é que no Paraíso o faria mais feliz. Ele pensou e depois segredou-lhe ao ouvido:

— Em casa, debaixo da cama, está uma caixa. Se eu pudesse tê-la!

O Anjo da Compreensão assentiu com a cabeça.

— Vais tê-la — prometeu, e enviou de imediato um mensageiro do céu.

Nos dias que se seguiram, todos estavam admirados com a notável mudança que se tinha operado no Pequeno Anjo. Era o anjo mais feliz de todos, e o seu comportamento e aspecto exterior eram tão exemplares.

Certo dia, chegou a notícia de que Jesus, o Filho de Deus, iria nascer da Virgem Maria, em Belém. Um regozijo geral encheu os ares e todos os anjos e arcanjos, as serafinas e os querubins, o porteiro do céu e todos os demais habitantes do céu puseram os seus trabalhos quotidianos de parte para prepararem presentes para o Filho de Deus.

Todos trabalhavam diligentemente, menos o Pequeno Anjo. Sentado no alto da escada do céu, com a cabeça apoiada nas mãos, esperava por uma boa ideia para uma prenda adequada. Mas, por mais que pensasse, não se lembrava de nada que fosse digno do Filho de Deus. Então, retirou do esconderijo, por detrás de uma nuvem, a sua caixa, e pousou-a em frente do trono de Deus. Era apenas uma pequena caixa, simples e já gasta, mas continha todas aquelas coisas maravilhosas que causariam prazer até ao Filho de Deus.

Lá estava agora a pequena caixa, simples e já gasta, no meio dos valiosos presentes dos anjos do Paraíso, presentes de tal esplendor e beleza tão admirável, que o céu e o restante universo estavam iluminados pelo seu simples reflexo.

Ao ver este esplendor, o Pequeno Anjo sentiu um grande desânimo, pois reconheceu que o seu presente não era digno. Gostaria de o retirar, mas agora era tarde demais.

O Pequeno Anjo tremia todo ao ver abrir a sua caixa. Diante dos olhos de Deus e dos outros habitantes do céu encontrava-se agora aquilo que ele tinha oferecido ao Filho de Deus: uma folha vermelha que apanhara na floresta num dia de sol, um ovo de passarinho da cor do céu, que tinha caído de uma oliveira, dois seixos brancos, que ele encontrara na margem lodosa do rio, e um pedaço de couro esfarrapado, que fora, noutros tempos, a coleira do seu fiel companheiro de quatro patas…O Pequeno Anjo chorava lágrimas quentes e amargas. Como pudera alguma vez pensar que coisas tão inúteis iriam agradar ao Filho de Deus?

Em pânico, voltou-se para fugir e esconder-se. Mas, de repente, tropeçou e caiu tão desajeitadamente sobre uma nuvem, que foi a rolar até ao trono do Todo-Poderoso.

Reinava um silêncio paralisante na cidade celeste, um silêncio onde só se ouviam os soluços dolorosos do Pequeno Anjo. Mas, de repente, elevou-se a voz de Deus, que disse:

— De todas as oferendas, esta caixa é a que mais me agrada. Ela contém coisas da terra e dos homens, e o Meu Filho nasceu para ser o rei de ambos. Por isso, aceito esta oferenda em nome do Menino Jesus, que hoje nasceu de Maria, em Belém.

Seguiu-se um silêncio profundo e a caixa do Pequeno Anjo começou de repente a resplandecer com uma luz sobrenatural. O brilho tornou-se tão claro e radioso, que quase cegou os olhos de todos os anjos. Aquele brilho tomou o um caminho pelo firmamento e, como, transformado numa estrela resplandecente, parou sobre um estábulo onde uma criança tinha nascido.

Charles Tazewell

 

O Quarto Rei

Deserto adentro viajam os magos… montados nos seus camelos através da escuridão da noite.

— Vejam, estamos a ser guiados por aquela estrela! — exclamou o primeiro.

— Guiados ao encontro de um rei — concordou o segundo.

— O Rei do Céu e da Terra — acrescentou o terceiro.

Havia um outro homem que viajava com eles.

— Quem me dera ser tão sábio como os meus companheiros — disse para si próprio. — Ter-me-ia inteirado melhor sobre a razão da nossa viagem antes de termos partido.

— A minha prenda está escondida no alforge — murmurou o primeiro.

— A minha vem atada ao cinto — respondeu o segundo.

— E eu trago a minha cosida entre as pregas da túnica — acrescentou o terceiro.

O quarto homem olhou para eles com tristeza.

— Ainda não encontrei uma prenda digna daquele rei — lamentou-se. — Continuo à procura.

— A minha prenda é ouro, porque o rei é poderoso — declarou o primeiro.

— A minha é incenso, porque as orações do rei chegarão a Deus que está no Céu — anunciou o segundo.

— E a minha é mirra, porque o rei será muito famoso em vida mas sê-lo-á ainda mais após a morte — declarou o terceiro.

O quarto homem baixou os olhos.

— Eu nem sequer sei que prenda lhe hei-de dar — suspirou.

Os quatro homens continuaram o caminho pela noite fora, prosseguindo uma viagem que iria prolongar-se por muitos dias e muitas noites.

Por fim, a estrela que os conduzia ficou imóvel no céu nocturno, pairando sobre uma humilde habitação.

— Que lugar tão estranho para um rei — admirou-se o primeiro homem.

— A estrela mostra claramente que estamos no sítio certo — respondeu o segundo.

— Vamos então entrar e oferecer as nossas prendas — disse o terceiro.

O quarto homem ficou à espera do lado de fora.

— Posso ir buscar água para os camelos — disse para si próprio — já que não encontrei uma prenda digna do rei que está lá dentro.

Deslocou-se até ao poço e encheu um cântaro com água. Como era muito pesado, pousou-o no chão por um instante. Foi então que descobriu uma coisa maravilhosa, e inclinou-se sobre o cântaro para a ver melhor.

— A estrela — disse ele. — A estrela que está no céu, está também no meu cântaro velho e gasto.

Ficou a olhar para ela maravilhado, durante um momento, e a seguir soltou uma sonora gargalhada.

— É isto que vou levar ao rei — disse — a luz do Céu reflectida na água do meu cântaro.

Milagrosamente, a estrela continuou a brilhar no cântaro, fazendo sorrir o Rei-Menino.

 

Lois Rock (org.)
Contos e Lendas da tradição cristã

 

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