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Partilha de três vocações missionárias

 

No âmbito do mês Missionário, a equipa das Missões/VIDES das FMA lançou o desafio a algumas das Irmãs Salesianas a trabalhar nas missões e fica aqui a partilha que chegou de Madagáscar e de Angola, das Irmãs Lídia Santos, Ana Santos e Isabel Mira.

 

Partilha Missionária

IR. LÍDIA SANTOS | Madagáscar

Equip. Missões/VIDES: Qual a história da tua vocação missionária, que influência teve a educação recebida na família, na escola,..?

 

Ir. Lídia Santos: Comecei a sentir a vocação missionária com a leitura das biografias das nossas primeiras Irmãs missionárias. A doação das suas vidas, a partilha da vida com esses povos, o procurar o bem para essas pessoas... ajudou-me a abrir o coração e a pensar que eu também poderia fazer o mesmo. Além disso, a passagem das Irmãs missionárias na casa de Formação, no Monte Estoril, reforçou a minha escolha. A partilha do que faziam nas missões, despertava em mim a vontade de poder partilhar a minha vida, eu também, com esses povos tão atormentados pela guerra, pela pobreza... Sentia-me “identificada" com esses povos, sobretudo de Moçambique e Angola. A educação que recebi na minha família influenciou a minha vocação porque foi uma educação muito virada para a solidariedade, para a atenção aos que sofrem, aos pobres, aos que têm menos oportunidade na vida. Mais do que a escola, a educação recebida nos Salesianos (grupo de jovens, catequese, grupo vocacional...) abriu-me ao aspecto missionário e fortificou a minha opção.

 

Equip. Missões/VIDES: Como é que a tua família reagiu à  decisão de seres missionária?

 

Ir. Lídia Santos: Todos ficaram contentes na minha família quando eu disse que tinha pedido para partir para as missões.A minha irmã gémea escreveu-me: "Passei lá em casa e os pais disseram-me que vais partir para as missões. Fiquei contente. Sinto que de algum modo tu realizas a minha vocação de partilhar a vida com os mais necessitados".

 

Equip. Missões/VIDES:Fala-nos um pouco da tua experiência missionária.

 

Ir.Lídia Santos: As pessoas daqui são muito acolhedoras, sempre sorridentes apesar de tanto sofrimento. O que recebo partilhando com as pessoas é muito mais do que aquilo que eu possa dar. Com elas aprendo o que é essencial na vida, a relação verdadeiramente humana, o valor da pessoa, a solidariedade, a partilha, a paciência, o relativizar os problemas...Trabalho num centro de formação profissional, na periferia da capital. É belo ver o caminho feito pelos jovens nos 2 ou 3 anos passados aqui. Os pais, com muito sacrifício, pagam a escolaridade (muito baixa em relação ao preço doutras escolas) para que os filhos possam ter um futuro melhor. Os alunos estão satisfeitos com a formação que recebem. Gostam muito de festa e participam de boa vontade às festas que fazemos ao longo do ano (Imaculada, Dom Bosco... até ao fim do ano). No ano lectivo passado fizemos mesmo um filme - não profissional, claro! Mas os recursos de que dispõem os jovens aqui são muito poucos. Por exemplo, não têm acesso à Internet; o exame do 12° de secretariado ainda é feito com as máquinas de escrever de antigamente; algumas escolas profissionais têm só um computador por 60 ou mais alunos... A vida da maior parte da população é difícil: os preços aumentam muito mais do que os salários e os mais pobres sofrem cada vez mais. O problema mais grave é a saúde: não existe tratamento gratuito! E as pessoas morrem às vezes com uma doença simples, porque não podem tratar-se. A Igreja católica está muito empenhada a nível social. Onde trabalham os missionários, as pessoas têm acesso à escola, ao dispensário... a custos acessíveis (porque simbólicos). Além das Irmãs missionárias de vários países, temos também jovens voluntárias - da França, da Alemanha, da Itália, da Polónia.

 

Veloma! (= adeus)

 

IR. ANA SANTOS | Angola

Equip. Missões/VIDES: Qual a história da tua vocação missionária, que influência teve a educação recebida na família, na escola,..?

 

Ir. Ana Santos: A história da minha vocação missionária é muito simples. Nunca me tinha passado pela cabeça uma opção por Deus e pela missão. Somente aos 18 anos me senti interpelada e resisti por dois anos. No primeiro momento, a minha família opôs-se. Quando tive o aval de todos, encontrei uma solidariedade e cumplicidade para o que desse e viesse a acontecer comigo. De certo modo todos acompanham.

A educação que recebi de certo que influencia o meu viver, o meu modo de estar e agir pois caracteriza a minha história pessoal que traduz o que sou hoje. Agradeço a Deus as experiências vividas nas diferentes etapas de crescimento, amei cada uma delas e procurei sempre viver aproveitando o máximo.

 

Equip. Missões/VIDES: Como é que a tua família reagiu à  decisão de seres missionária?

 

Ir. Ana Santos: Quanto à minha decisão missionária, não tive problemas. A minha família aceitou bem uma vez que ela tinha a ver com a minha opção vocacional. Muitos me consideram uma ‘aventureira’ mas não sou, simplesmente procuro responder às necessidades que me se apresentam às quais não posso ficar indiferente ou alheia. Não me sinto sozinha, tenho o apoio de toda a minha família que vibra com cada nova fronteira que tenho que enfrentar. A oração e o carinho de todos fazem parte do meu dia a dia.
 

Equip. Missões/VIDES: Fala-nos um pouco da tua experiência missionária.

 

Ir. Ana Santos: A minha primeira experiência missionária foi em 1992, no período da relativa paz em Angola. Nesse momento de graça pude gozar a visita de Sua Santidade o Papa João Paulo II que nos visitou. Vivemos momentos de graça e de esperança.

Nesse tempo pude viajar do norte ao centro do país e constatar como estava o país. Essa viagem considero-a uma das maiores aventuras da minha vida.

Outra experiência forte foi os seis anos vividos em terras de missão no interior do país. O trabalho em equipa: das Irmãs FMA e dos Salesianos permitiu realizar muitas coisas até mesmo enfrentar as adversidades com coragem e alegria. Uma dessas experiências que quero evocar, foi quando a equipa missionária preparou o regresso de mais de oitenta famílias à sua zona de origem.

Por motivos de guerra elas estavam refugiadas na nossa zona de missão. Com a assinatura do tratado de paz entre irmãos, que trouxe o clima de tranquilidade por todo o lado do país foi possível apoiar e incentivar as populações a regressarem a casa e reiniciarem as suas vidas. Foram três dias de verdadeiro safari. Andámos por zonas onde não circulavam carros há mais de cinco anos; tivemos que reconstruir pontes, uma delas a maior sobre o rio Luinga. O clima era de alegria, expectativa por parte de todos e também de curiosidade. Um pormenor que ficou na memória dos mais velhos foi a fome que tiveram… Os trabalhos de reconstrução de pontes com troncos de pau ‘ferro’ que uma equipa de batedores tinha já cortado antes de todos chegarmos era pesado e exigia a atenção de todos e dos meios que dispúnhamos. Tractores, camião com guindastes… correntes de ferro para puxar por homens e não só, não permitiu que parássemos para almoçar (a verdade é que não deixei para não perdermos as forças).

Uma vez construída a ponte, a alegria era tanta que ninguém mais pensou no almoço e tentamos passar meio a medo dado o peso do camião carregado… Como Nossa Senhora Auxiliadora foi invocada à medida que cada carro passava depois do povo ter passado a pé… Choros de alegria e aclamações brotavam da boca de todos… Já escurecia e em pequenos riachos vimos gazelas, veados que brincavam na água e nos olhavam encandeados pela luz dos faróis e holofotes que tínhamos. Estranhavam-nos pois há muito que não viam luz artificial e nem tinham medo, como se estivessem a dizer-nos bem-vindos.

Chegamos ao destino de madrugada, depois de um momento de acção de graças partilhamos a ceia e realojamo-nos como pudemos.

Bem cedo, pois o dia ia ser longo, celebramos a Eucaristia. Fizemos a distribuição dos bens de primeira necessidade até que houvesse colheita e partimos à tardinha com os nossos carros vazios mas o coração repleto de alegria pela graça vivida… A noite chegou com um luar fora de série e decidimos parar para esperar os tractores e o camião que eram mais lentos que os nossos carros e preparamos um jantar ao luar. Como menu tivemos carne de caça com massa que deixaria qualquer hotel de cinco estrelas para trás.

 


IR. ISABEL MIRA | Angola

Equip. Missões/VIDES: Qual a história da tua vocação missionária, que influência teve a educação recebida na família, na escola,..?

 

Ir. Isabel Mira: A história da minha vocação missionária…

Penso que nunca é fácil contar totalmente a história duma vocação, pois há momentos que conseguimos identificar e perceber o caminho feito numa determinada direcção, mas há uma grande parte de mistério que, de certa forma, nos apercebemos mas que não conseguimos contar…

A primeira vez que me lembro de sentir mexer cá dentro de mim este desejo de poder ajudar outros foi quando estava no 1º Ciclo, não me lembro exactamente em que classe. Julgo que estaríamos ou no mês missionário ou algo semelhante, lembro-me que a professora levou algumas imagens de crianças pobres, penso que de África, e que nos sensibilizou à partilha.

 

No Colégio Laura Vicuña era frequente a sensibilização para as campanhas missionárias e também tive a oportunidade de escutar testemunhos de missionários/as. Em casa também fui aprendendo esta atenção ao que tem menos, este ajudar discretamente quem se podia.

Estes três aspectos de certa forma contextualizam a minha vocação missionária, foram o berço para algo que Deus tinha semeado em mim. Momentos mais fortes que me foram fazendo descobrir esta vocação, foram experiências que fui fazendo ao nível de apostolado. Lembro-me que devia ter quase 16 anos quando participei numas férias apostólicas, onde tive a oportunidade de trabalhar com crianças desfavorecidas. Creio que foi a primeira vez na minha vida que senti a diferença que um “estar com” podia fazer nas atitudes, na vida das crianças.

Felizmente fui tendo muitas oportunidades, seja através da catequese, da formação recebida, de momentos de oração, de experiências apostólicas de ir descobrindo este desejo de partilhar a minha vida para que outros pudessem descobrir a alegria de viver.

A minha vocação missionária começou a dar “sinal” antes da vocação religiosa, mas a partir de uma determinada altura ambas começaram a entrelaçar-se e descobri então que uma consolidava a outra. Olhando para trás, gosto de ver as várias etapas pelas quais foi passando este desejo de partilhar a minha vida. Primeiro, o desejo de ser missionária era mais numa linha humana, querer ajudar quem tinha menos, quem vivia em condições indignas de seres humanos, isso era muito claro para mim. Porém, à medida que o tempo foi passando e que também fui descobrindo o Amor de Deus, e a diferença que faz na nossa vida, comecei a sentir dentro de mim esta “obrigação” de partilhar a imensa alegria de ser profundamente amada por Deus. Comecei a sentir que não poderia estar tranquila sem fazer uma opção radical nessa linha, não se tratava de dar só algum tempo, nem só a quem estava na minha terra. Não, senti que Deus me chamava, me enviava aos que estavam longe, aos que muitas vezes não têm muitas oportunidades na vida, àqueles que frequentemente são marginalizados. Não é uma questão de me sentir “mais”, ou de vir numa linha de “super-mulher” que vai ajudar os “coitadinhos”, não! Vim numa linha de partilha de vida, de dar e de receber. De poder caminhar com os jovens e com todos aqueles que Deus me vai fazendo encontrar, para que possam ter uma melhor qualidade de vida, ou seja, para a Vida Verdadeira.

Esta vocação foi ganhando corpo ao longo do tempo, mas amadureceu já como FMA. Não é que quando vivia e trabalhava em Portugal não estivesse bem, estava sim! Mas quando se sente que ainda há estrada a percorrer seria tolice ficar parada sem chegar onde Deus nos indica não era? E é assim que agora estou em Angola!

 

Equip. Missões/VIDES: Como é que a tua família reagiu à  decisão de seres missionária?

 

Ir. Isabel Mira: Como reagiu? Ora aí está uma pergunta interessante!

E não se pode dar uma resposta única pois pessoas diferentes têm reacções diferentes. De certa forma não foi uma novidade a 100% para ninguém, já várias vezes tinha falado deste desejo de ser missionária. Claro que é muito diferente falar e depois partir mesmo!        

A vocação é um chamamento de Deus e portanto não é algo que se possa compreender apenas com a razão, é preciso também a fé para se “compreender” certas decisões. E é nessa linha que penso que a minha família tem estado a aceitar esta minha decisão. Apesar de humanamente custar, além de tudo o mais sou a única filha no meio de homens…, sei que a minha família quer que eu seja feliz e se é este o caminho que Deus me traçou para a Felicidade, todos eles, compreendendo mais ou menos esta opção, respeitam e estão presentes e de certa forma participam também nesta minha acção missionária.

 

Equip. Missões/VIDES: Fala-nos um pouco da tua experiência missionária.

 

Ir. Isabel Mira: A minha experiência em Angola é ainda demasiado pouca para que possa falar muito. Estou cá há pouco mais de 8 meses, e com 8 meses um bebé ainda não fala!

Mas mesmo assim ouso partilhar alguma coisa.Estou na comunidade de Cacuaco, a cerca de 20km a norte de Luanda. Somos uma comunidade de 5 Irmãs, 3 angolanas, uma das quais também missionária, uma da Colômbia e eu de Portugal, e 3 jovens angolanas que estão a preparar-se para ser irmãs. Como trabalho temos escola, desde os 3 anos até à 8ª classe. À noite temos também alfabetização de adultos até à 5ª classe. De manhã à noite a casa está cheia de vida! Além das aulas, aqui temos também algumas salas em vários bairros de modo a podermos dar resposta a um maior número de destinatários. Outra das vertentes significativas da nossa missão é a pastoral, desde Catequese a MJS, é impressionante ver aos sábados de manhã centenas de jovens (dos 14 aos 24 anos) a virem para a catequese. Aos sábados de tarde é a vez das crianças e ao final da tarde temos também um grupo de adultos. Aos Domingos é dia dos vários grupos, ADS, Lauras, JDB, Escuteiros…, e dos oratórios. Tal como na escola, também aqui nos fazemos presentes nas capelas das várias comunidades aqui de Cacuaco. Isto são os modos “estruturados “ do que fazemos, mas há ainda um ajudar que não é “contabilizado”…mas estamos presentes em muitas situações, em muitas vidas…

 

A minha impressão destes primeiros meses?

       

É positiva, sente-se o fervilhar da vida, é algo de muito belo! Jovens que lutam para poderem estudar, muitos têm que trabalhar para poder assegurar os estudos. Não é fácil a vida para quem quer estudar, mas são muitos os que conseguem vencer as dificuldades e conseguir uma formação melhor! Em muitas coisas, os jovens são jovens em qualquer parte do mundo, (coisas da natureza humana e da globalização!) e muitas das características dos jovens portugueses são as mesmas dos jovens angolanos, muitas das dúvidas, dos sonhos, dos desafios assemelham-se ainda que com matizes diferentes.

Angola é um país que em reconstrução…Ainda há muita estrada a percorrer em várias áreas, mas há passos que estão a ser dados e há muita gente com vontade de caminhar!

Não podia deixar de falar nas mulheres, essas mães, essas heroínas, que com entusiasmo e muito sacrifício conseguem levar o “mundo” para a frente. A criatividade para conseguirem o “ganha-pão”, o entusiasmo e a participação nas celebrações litúrgicas, a solidariedade no sofrimento…

Enfim… isto é só um pouco do muito que tenho vivido, mas contar não é fácil, pois são contextos diferentes e quando não se vive, as palavras não chegam e podem até dar uma ideia distorcida.

A messe é muita, sim em todo o mundo há messe, agora a questão é: “qual a TUA messe?” e que resposta dás a tantas interpelações que o mundo te faz, ao sonho que Deus tem para ti…

 

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