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IR. LÍDIA SANTOS |
Madagáscar
Equip. Missões/VIDES:
Qual a história da tua vocação missionária, que influência teve a
educação recebida na família, na escola,..?
Ir. Lídia Santos:
Comecei a sentir a
vocação missionária com a leitura das biografias das nossas primeiras
Irmãs missionárias. A doação das suas vidas, a partilha da vida com
esses povos, o procurar o bem para essas pessoas... ajudou-me a abrir o
coração e a pensar que eu também poderia fazer o mesmo. Além disso, a
passagem das Irmãs missionárias na casa de Formação, no Monte Estoril,
reforçou a minha escolha. A partilha do que faziam nas missões,
despertava em mim a vontade de poder partilhar a minha vida, eu também,
com esses povos tão atormentados pela guerra, pela pobreza... Sentia-me
“identificada" com esses povos, sobretudo de Moçambique e Angola. A
educação que recebi na minha família influenciou a minha vocação porque
foi uma educação muito virada para a solidariedade, para a atenção aos
que sofrem, aos pobres, aos que têm menos oportunidade na vida. Mais do
que a escola, a educação recebida nos Salesianos (grupo de jovens,
catequese, grupo vocacional...) abriu-me ao aspecto missionário e
fortificou a minha opção.
Equip. Missões/VIDES:
Como é que a tua família reagiu à decisão de seres missionária?
Ir. Lídia Santos:
Todos ficaram
contentes na minha família quando eu disse que tinha pedido para partir
para as missões.A minha irmã gémea escreveu-me: "Passei lá em casa e os
pais disseram-me que vais partir para as missões. Fiquei contente. Sinto
que de algum modo tu realizas a minha vocação de partilhar a vida com os
mais necessitados".
Equip. Missões/VIDES:Fala-nos
um pouco da tua experiência missionária.
Ir.Lídia Santos:
As pessoas daqui são
muito acolhedoras, sempre sorridentes apesar de tanto sofrimento. O que
recebo partilhando com as pessoas é muito mais do que aquilo que eu
possa dar. Com elas aprendo o que é essencial na vida, a relação
verdadeiramente humana, o valor da pessoa, a solidariedade, a partilha,
a paciência, o relativizar os problemas...Trabalho num centro de
formação profissional, na periferia da capital. É belo ver o caminho
feito pelos jovens nos 2 ou 3 anos passados aqui. Os pais, com muito
sacrifício, pagam a escolaridade (muito baixa em relação ao preço
doutras escolas) para que os filhos possam ter um futuro melhor. Os
alunos estão satisfeitos com a formação que recebem. Gostam muito de
festa e participam de boa vontade às festas que fazemos ao longo do ano
(Imaculada, Dom Bosco... até ao fim do ano). No ano lectivo passado
fizemos mesmo um filme - não profissional, claro! Mas os recursos de que
dispõem os jovens aqui são muito poucos. Por exemplo, não têm acesso à
Internet; o exame do 12° de secretariado ainda é feito com as máquinas
de escrever de antigamente; algumas escolas profissionais têm só um
computador por 60 ou mais alunos... A vida da maior parte da população é
difícil: os preços aumentam muito mais do que os salários e os mais
pobres sofrem cada vez mais. O problema mais grave é a saúde: não existe
tratamento gratuito! E as pessoas morrem às vezes com uma doença
simples, porque não podem tratar-se. A Igreja católica está muito
empenhada a nível social. Onde trabalham os missionários, as pessoas têm
acesso à escola, ao dispensário... a custos acessíveis (porque
simbólicos). Além das Irmãs missionárias de vários países, temos também
jovens voluntárias - da França, da Alemanha, da Itália, da Polónia.
Veloma! (= adeus)
IR. ANA SANTOS | Angola
Equip. Missões/VIDES:
Qual a história da tua vocação missionária, que influência teve a
educação recebida na família, na escola,..?
Ir. Ana Santos:
A história da minha
vocação missionária é muito simples. Nunca me tinha passado pela cabeça
uma opção por Deus e pela missão. Somente aos 18 anos me senti
interpelada e resisti por dois anos. No primeiro momento, a minha
família opôs-se. Quando tive o aval de todos, encontrei uma
solidariedade e cumplicidade para o que desse e viesse a acontecer
comigo. De certo modo todos acompanham.
A educação que recebi de
certo que influencia o meu viver, o meu modo de estar e agir pois
caracteriza a minha história pessoal que traduz o que sou hoje. Agradeço
a Deus as experiências vividas nas diferentes etapas de crescimento,
amei cada uma delas e procurei sempre viver aproveitando o máximo.
Equip. Missões/VIDES:
Como é que a tua família reagiu à decisão de seres missionária?
Ir. Ana Santos:
Quanto à minha
decisão missionária, não tive problemas. A minha família aceitou bem uma
vez que ela tinha a ver com a minha opção vocacional. Muitos me
consideram uma ‘aventureira’ mas não sou, simplesmente procuro responder
às necessidades que me se apresentam às quais não posso ficar
indiferente ou alheia. Não me sinto sozinha, tenho o apoio de toda a
minha família que vibra com cada nova fronteira que tenho que enfrentar.
A oração e o carinho de todos fazem parte do meu dia a dia.
Equip. Missões/VIDES:
Fala-nos
um pouco da tua experiência missionária.
Ir. Ana Santos:
A minha primeira
experiência missionária foi em 1992, no período da relativa paz em
Angola. Nesse momento de graça pude gozar a visita de Sua Santidade o
Papa João Paulo II que nos visitou. Vivemos momentos de graça e de
esperança.
Nesse tempo pude viajar do
norte ao centro do país e constatar como estava o país. Essa viagem
considero-a uma das maiores aventuras da minha vida.
Outra experiência forte foi
os seis anos vividos em terras de missão no interior do país. O trabalho
em equipa: das Irmãs FMA e dos Salesianos permitiu realizar muitas
coisas até mesmo enfrentar as adversidades com coragem e alegria. Uma
dessas experiências que quero evocar, foi quando a equipa missionária
preparou o regresso de mais de oitenta famílias à sua zona de origem.
Por motivos de guerra elas
estavam refugiadas na nossa zona de missão. Com a assinatura do tratado
de paz entre irmãos, que trouxe o clima de tranquilidade por todo o lado
do país foi possível apoiar e incentivar as populações a regressarem a
casa e reiniciarem as suas vidas. Foram três dias de verdadeiro safari.
Andámos por zonas onde não circulavam carros há mais de cinco anos;
tivemos que reconstruir pontes, uma delas a maior sobre o rio Luinga. O
clima era de alegria, expectativa por parte de todos e também de
curiosidade. Um pormenor que ficou na memória dos mais velhos foi a fome
que tiveram… Os trabalhos de reconstrução de pontes com troncos de pau
‘ferro’ que uma equipa de batedores tinha já cortado antes de todos
chegarmos era pesado e exigia a atenção de todos e dos meios que
dispúnhamos. Tractores, camião com guindastes… correntes de ferro para
puxar por homens e não só, não permitiu que parássemos para almoçar (a
verdade é que não deixei para não perdermos as forças).
Uma vez construída a ponte,
a alegria era tanta que ninguém mais pensou no almoço e tentamos passar
meio a medo dado o peso do camião carregado… Como Nossa Senhora
Auxiliadora foi invocada à medida que cada carro passava depois do povo
ter passado a pé… Choros de alegria e aclamações brotavam da boca de
todos… Já escurecia e em pequenos riachos vimos gazelas, veados que
brincavam na água e nos olhavam encandeados pela luz dos faróis e
holofotes que tínhamos. Estranhavam-nos pois há muito que não viam luz
artificial e nem tinham medo, como se estivessem a dizer-nos bem-vindos.
Chegamos ao destino de
madrugada, depois de um momento de acção de graças partilhamos a ceia e
realojamo-nos como pudemos.
Bem cedo, pois o dia ia ser
longo, celebramos a Eucaristia. Fizemos a distribuição dos bens de
primeira necessidade até que houvesse colheita e partimos à tardinha com
os nossos carros vazios mas o coração repleto de alegria pela graça
vivida… A noite chegou com um luar fora de série e decidimos parar para
esperar os tractores e o camião que eram mais lentos que os nossos
carros e preparamos um jantar ao luar. Como menu tivemos carne de caça
com massa que deixaria qualquer hotel de cinco estrelas para trás.
IR. ISABEL MIRA | Angola
Equip. Missões/VIDES:
Qual a história da tua vocação missionária, que influência teve a
educação recebida na família, na escola,..?
Ir. Isabel Mira:
A história da minha
vocação missionária…
Penso que nunca é fácil
contar totalmente a história duma vocação, pois há momentos que
conseguimos identificar e perceber o caminho feito numa determinada
direcção, mas há uma grande parte de mistério que, de certa forma,
nos apercebemos mas que não conseguimos contar…
A primeira vez que me
lembro de sentir mexer cá dentro de mim este desejo de poder ajudar
outros foi quando estava no 1º Ciclo, não me lembro exactamente em
que classe. Julgo que estaríamos ou no mês missionário ou algo
semelhante, lembro-me que a professora levou algumas imagens de
crianças pobres, penso que de África, e que nos sensibilizou à
partilha.
No Colégio Laura Vicuña
era frequente a sensibilização para as campanhas missionárias e
também tive a oportunidade de escutar testemunhos de
missionários/as. Em casa também fui aprendendo esta atenção ao que
tem menos, este ajudar discretamente quem se podia.
Estes três aspectos de
certa forma contextualizam a minha vocação missionária, foram o
berço para algo que Deus tinha semeado em mim. Momentos mais fortes
que me foram fazendo descobrir esta vocação, foram experiências que
fui fazendo ao nível de apostolado. Lembro-me que devia ter quase 16
anos quando participei numas férias apostólicas, onde tive a
oportunidade de trabalhar com crianças desfavorecidas. Creio que foi
a primeira vez na minha vida que senti a diferença que um “estar
com” podia fazer nas atitudes, na vida das crianças.
Felizmente fui tendo
muitas oportunidades, seja através da catequese, da formação
recebida, de momentos de oração, de experiências apostólicas de ir
descobrindo este desejo de partilhar a minha vida para que outros
pudessem descobrir a alegria de viver.
A minha vocação
missionária começou a dar “sinal” antes da vocação religiosa, mas a
partir de uma determinada altura ambas começaram a entrelaçar-se e
descobri então que uma consolidava a outra. Olhando para trás, gosto
de ver as várias etapas pelas quais foi passando este desejo de
partilhar a minha vida. Primeiro, o desejo de ser missionária era
mais numa linha humana, querer ajudar quem tinha menos, quem vivia
em condições indignas de seres humanos, isso era muito claro para
mim. Porém, à medida que o tempo foi passando e que também fui
descobrindo o Amor de Deus, e a diferença que faz na nossa vida,
comecei a sentir dentro de mim esta “obrigação” de partilhar a
imensa alegria de ser profundamente amada por Deus. Comecei a sentir
que não poderia estar tranquila sem fazer uma opção radical nessa
linha, não se tratava de dar só algum tempo, nem só a quem estava na
minha terra. Não, senti que Deus me chamava, me enviava aos que
estavam longe, aos que muitas vezes não têm muitas oportunidades na
vida, àqueles que frequentemente são marginalizados. Não é uma
questão de me sentir “mais”, ou de vir numa linha de “super-mulher”
que vai ajudar os “coitadinhos”, não! Vim numa linha de partilha de
vida, de dar e de receber. De poder caminhar com os jovens e com
todos aqueles que Deus me vai fazendo encontrar, para que possam ter
uma melhor qualidade de vida, ou seja, para a Vida Verdadeira.
Esta vocação foi
ganhando corpo ao longo do tempo, mas amadureceu já como FMA. Não é
que quando vivia e trabalhava em Portugal não estivesse bem, estava
sim! Mas quando se sente que ainda há estrada a percorrer seria
tolice ficar parada sem chegar onde Deus nos indica não era? E é
assim que agora estou em Angola!
Equip. Missões/VIDES:
Como é que a tua família reagiu à decisão de seres missionária?
Ir. Isabel Mira:
Como reagiu? Ora
aí está uma pergunta interessante!
E não se pode dar uma
resposta única pois pessoas diferentes têm reacções diferentes. De
certa forma não foi uma novidade a 100% para ninguém, já várias
vezes tinha falado deste desejo de ser missionária. Claro que é
muito diferente falar e depois partir mesmo!
A vocação é um
chamamento de Deus e portanto não é algo que se possa compreender
apenas com a razão, é preciso também a fé para se “compreender”
certas decisões. E é nessa linha que penso que a minha família tem
estado a aceitar esta minha decisão. Apesar de humanamente custar,
além de tudo o mais sou a única filha no meio de homens…, sei que a
minha família quer que eu seja feliz e se é este o caminho que Deus
me traçou para a Felicidade, todos eles, compreendendo mais ou menos
esta opção, respeitam e estão presentes e de certa forma participam
também nesta minha acção missionária.
Equip. Missões/VIDES:
Fala-nos
um pouco da tua experiência missionária.
Ir. Isabel Mira:
A minha experiência
em Angola é ainda demasiado pouca para que possa falar muito. Estou
cá há pouco mais de 8 meses, e com 8 meses um bebé ainda não fala!
Mas mesmo assim ouso
partilhar alguma coisa.Estou na comunidade de Cacuaco, a cerca
de 20km a norte de Luanda. Somos uma comunidade de 5 Irmãs, 3
angolanas, uma das quais também missionária, uma da Colômbia e
eu de Portugal, e 3 jovens angolanas que estão a preparar-se
para ser irmãs. Como trabalho temos escola, desde os 3 anos até
à 8ª classe. À noite temos também alfabetização de adultos até à
5ª classe. De manhã à noite a casa está cheia de vida! Além das
aulas, aqui temos também algumas salas em vários bairros de modo
a podermos dar resposta a um maior número de destinatários.
Outra das vertentes significativas da nossa missão é a pastoral,
desde Catequese a MJS, é impressionante ver aos sábados de manhã
centenas de jovens (dos 14 aos 24 anos) a virem para a
catequese. Aos sábados de tarde é a vez das crianças e ao final
da tarde temos também um grupo de adultos. Aos Domingos é dia
dos vários grupos, ADS, Lauras, JDB, Escuteiros…, e dos
oratórios. Tal como na escola, também aqui nos fazemos presentes
nas capelas das várias comunidades aqui de Cacuaco. Isto são os
modos “estruturados “ do que fazemos, mas há ainda um ajudar que
não é “contabilizado”…mas estamos presentes em muitas situações,
em muitas vidas…
A minha impressão
destes primeiros meses?
É positiva, sente-se
o fervilhar da vida, é algo de muito belo! Jovens que lutam para
poderem estudar, muitos têm que trabalhar para poder assegurar
os estudos. Não é fácil a vida para quem quer estudar, mas são
muitos os que conseguem vencer as dificuldades e conseguir uma
formação melhor! Em muitas coisas, os jovens são jovens em
qualquer parte do mundo, (coisas da natureza humana e da
globalização!) e muitas das características dos jovens
portugueses são as mesmas dos jovens angolanos, muitas das
dúvidas, dos sonhos, dos desafios assemelham-se ainda que com
matizes diferentes.
Angola é um país que
em reconstrução…Ainda há muita estrada a percorrer em várias
áreas, mas há passos que estão a ser dados e há muita gente com
vontade de caminhar!
Não podia deixar de
falar nas mulheres, essas mães, essas heroínas, que com
entusiasmo e muito sacrifício conseguem levar o “mundo” para a
frente. A criatividade para conseguirem o “ganha-pão”, o
entusiasmo e a participação nas celebrações litúrgicas, a
solidariedade no sofrimento…
Enfim… isto é só um
pouco do muito que tenho vivido, mas contar não é fácil, pois
são contextos diferentes e quando não se vive, as palavras não
chegam e podem até dar uma ideia distorcida.
A messe é muita, sim em
todo o mundo há messe, agora a questão é: “qual a TUA messe?” e que
resposta dás a tantas interpelações que o mundo te faz, ao sonho que
Deus tem para ti…
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